quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Nem ler nem escrever

Nunca fui muito profícuo na leitura, mas sempre me considerei razoável na releitura. Me lembro que quando menino, ficava um bocado angustiado quando sentia vontade de reler os meus livros prediletos, pois imaginava que estava perdendo tempo revendo coisas que afinal eu já tinha conhecido. Talvez por ter lido muito jovem obras como a de Dostoievski (como diz o Rubem Fonseca em seu Diário de um fescenino, “vou dizer que foi com 13 anos que li Dostoievski, mas no duro foi com 12”) e Shakespeare por exemplo, é que sempre ao me ver mais homenzinho tornava a reler algum livro. A angústia foi diminuindo quando percebi que as leituras poderiam ser bastante diferentes em cada época e desenvolvimento intelectual e cultural do leitor, e que no final de contas eu descobria sentimentos e interpretações muito originais de cada novo contato. É verdade que nunca me dei por vencido, sobretudo quando comecei a vislumbrar o infinito das leituras que jamais poderei fazer, sendo que o comichão ainda salpica travesso quando retomo pela vigésima terceira vez o Hamlet.

Nos últimos dois anos tenho me dedicado a ler mais e reler menos. A maratona tem sido desgastante e por vezes inconseqüente: quando começa a chegar assim o fim do ano, novembro e dezembro, meses capitais, surge uma angústia de outro gênero ao olhar-se para as leituras feitas nesse ínterim. O que é que afinal apreendi nesse amontoado de palavras? Enfiar leitura atrás de leitura, terminando um livro e começando outro imediatamente numa conta que chega na data exata de hoje a vinte e sete livros tem algum valor sério? Chega-se a alcançar alguma coisa de uma miríade de idéias, imagens, estéticas, argumentos etc se em verdade não se pára para digerir o que foi ingerido? A esse respeito, é impossível não lembrar da irônica lição de Schopenhauer, ao comentar um ou outro leitor inveterado e de gogó aflito por contar (vinte e sete livros, tá bom...) o quanto leu: “Ah, essa pessoa deve ter pensando muito pouco para poder ter lido tanto!”. A linha de argumento do filósofo alemão é que o único pensamento válido é aquele próprio, ou seja, criado a partir do nosso próprio gênio. Considera que o exagero de leitura só pode ser um desvio ao caminho do pensamento original e próprio, que faz o ser humano evoluir enquanto pensador. A maneira, segundo Schopenhauer, mais fácil de se tornar um estúpido é “tomar um livro nas mãos a cada minuto livre”. O caso é que algo sempre me assalta: se termino um livro, preciso necessariamente escrever sobre ele? Pensar sobre ele apenas é válido para apreendê-lo? Qual seria o lapso prático-temporal para se enfiar em outra leitura?

Então chega-se a outro ponto: escrever sobre. O fato de possuir este blogue me pressiona a escrever sobre o que ando lendo, afinal, a presunção desmedida do subtítulo da página proclama: literatura. Poderia dizer que dos livros que andei lendo muitos não são de literatura (ainda que isso não redima os “afins”) e por isso não me meti a comentá-los. Mas, e se, de fato não tenho nada a dizer sobre Minha querida Sputnik do Murakami? Ué, não tenho, como disse num texto anterior, melhor me calar. Isso é extensível também ao assuntos que pululam na mídia. A quando da celeuma sobre artigo do Renato Janine Ribeiro, e por influência de uma excitação escusável de ter acabado de criar o blogue, meti-me a dizer qualquer tolice para lembrar aos poucos leitores que sim, eu estava a par dos acontecimentos. Tolices e lugares-comuns que nada acrescentaram ao debate. Mesmo assim ainda me sinto constrangido por não ter dito uma palavra aqui na Bazófia acerca da pendenga Huck/Ferréz, ou não escrever minhas impressões sobre Tropa de Elite.

Na verdade fiz um Caldeirão do Huck de idéias mal ajambradas. Perguntei mal e não indiquei um caminho de reflexão: as minhas dúvidas, para deixá-las explícitas e talvez evidenciar se têm relação entre si, são de que adianta ler um bocado de coisas intempestivamente e sem método se não se sabe ao certo o que se depreendeu delas? De que adianta escrever (e mais adiante ter um espaço para se escrever) sobre um assunto se não se acresce absolutamente nada de novo ou original ao assunto?

Uma coisa me parece precisa: as leituras, por mais que tenham sido pensadas, não conseguiram colaborar para que afinal, este mesmo texto que fala delas e de si próprio, conseguisse ser um pouco menos estapafúrdio que os demais que suscitaram as dúvidas quanto a continuar escrevendo. Ler eu vou continuar, nem que seja por passa-tempo.

p.s. – mais uma dúvida? Lembrando-me de um texto anterior que falava sobre o que se espera de um blogue, qual a diferença entre os criticados blogues de “diários pessoais” e este aqui, cuja única função foi dizer pessoalmente das coisas que leio e das coisas que intuo? Existe realmente distinção em contar “hoje fui à feira livre comer pastéis” e “hoje terminei de ler tal livro e não sei o que dizer sobre ele”?

18 Pitacos:

Ju Padilha disse...

Peço licença para dar meu pitaco aqui... e se peço esta permissão antes de ecrever é por respeito ao seu espaço, que embora seja público, é seu... e tendo em vista o desenrolar dos últimos posts, peço com toda sinceridade: posso pitaquear? Beijos!

Juliano Machado disse...

Sempre, sempre. Aliás, os meus comentários não têm mediação: assim que o leitor os deixam, vão para a página sem ao menos eu ficar sabendo.

outro beijo.

Anônimo disse...

Ruim. Não formulou boas perguntas, não tateou nenhuma resposta. O primeiro parágrafo não tem nada a ver com o segundo que não tem nada a ver com o terceiro. Exibicionismo gratuito? Leu 27 livros? Parabéns, mas leia mais, não está adiantando.

No final, você tem razão, não há diferença. Seu blogue é um diário que só camufla o narcisismo.

Ju Padilha disse...

fico feliz!!! fico feliz também, porque lembro desta conversa contigo!!! se ajuda saber,sou uma leitora de memória fraca, razão pela qual grifo parágrafos e deixo comentários nas beiradas das páginas, posto que sei que os esquecerei!!! mas se a idéia for boa mesmo, posso não lembrar das palavras exatas, mas lembrarei da sensação ao ler e isto para mim basta! é preciso ruminar os textos?!! espero que você volte a aparecer no idiossincrasia! beijo!

Tatiana Machado disse...

Ai, ai, muitas coisas a dizer. Vou dizer apenas algumas poucas do turbilhão que me ocorre. Por partes:

1. Há uma linha de argumentação no seu texto, linha interessante. E filosófica, eu diria: questionar-se o por quê disso ou daquilo (ler e escrever) é uma questão filosófica, antes de mais nada. Talvez tivesse finalizado melhor se ela abrisse a reflexão para o mundo (por exemplo, na linha do debate com Schopenhauer, ou com a blogosfera), ao invés de feixar em si mesma. Pontos de vista, escolhas. O que não significa que o seu texto seja inútil ou ruim, como destrutiva e preconceituosamente apontam você e a Ana.

2. Por que afinal de contas nós achamos que temos que ter opinião sobre tudo? Não é esse afinal um imperativo do nosso mundo contemporâneo, tal qual o "pare de sofrer"? E se não se acrecenta nada de novo em um texto, acrescenta-se em outro. O que não dá é pra destruir um conjunto de coisas boas por ocasião de um momento que não foi bom.

3. Fazer um blogue é um exercício narcisista? Claro que é, assim como a grande maioria das atividades que fazemos no dia a dia. É uma compreensão equivocada achar que narcisismo é pecado ou egoísmo. Calma lá. Fazer um blogue é uma forma muito mais interessante e culturalmente adaptada de afirmar-se publicamente do que, por exemplo, dedicar-se a fazer comentários destrutivos em blogues alheios. Não acha?

Parece-me que já escrevi demais e nem falei sobre o assunto que importava na postagem. Para não me estender demais, deixo para outro momento.

Continue, Juliano, continue.
Beijo.

Anônimo disse...

Ana, eu concordo contigo que o texto não é realmente uma beleza. Não obstante, a minha resposta mais trabalhada empresto da Tatiana, no comentário abaixo.

Anônimo disse...

Ju, eu realmente não sei as respostas. Mas acho que cada um desenvolve uma relação pessoal com as leituras e essas dúvidas, ainda que possam ser genéricas, tomaram a peculiaridade do dia a dia de cada leitor. Nunca deixei de frequentar a Idiossincrasias.

Anônimo disse...

Tatiana, fico satisfeito com o seu comentário. Em verdade, apesar do tom irônico e auto-destrutivo, a idéia é realmente proceder a um questionamento que desenvolva mais o ler e o escrever. A questão do narcisismo me deixou bem mais tranquilho: com essas palavras assim claras consegui alcançar que realmente aí não está um juízo pejorativo de valores.

No final, contradizer-me escrevendo e lendo acaba corroborando as suas sempre bem-vindas opiniões.

Obrigado pelos sempre melhores comentários.

Anônimo disse...

Tatiana, só um comentário: a Marlene já tinha comentado sobre a questão do recorte nascisístico, salientando que não via necessariamente algo de ruim nisso, lá no primeiro texto sobre blogues e blogueiros.

Ju Padilha disse...

Que coincidência Veri!!!
Ontém ao ler o comentário de Ana pensei a mesma coisa!!! Óbvio que não teria tamanha desenvoltura, para falar a respeito... afinal este é um post de uma pessoa que usa reticências porque não sabe usar vírgulas... mas fiquei pensando se a moça teria um blog... seria bastante interassante a leitura deste... ou não!!!
beijos!

Anônimo disse...

(Essa Ana é uma chata de galocha, jesuis...)

Texto corajoso, Juliano. Me lembrou minhas angústias por tudo o que gostaria de ler e não terei tempo suficiente. Na época da faculdade, pirei muito com isso, justo eu, que sempre fui leitora voraz. Até me dar conta de que não tem valor nenhum se empanturrar de livro, que a gente precisa mesmo de um tempo para as idéias irem se assentando. É sofrido, mas compensa.

Anônimo disse...

(Essa Ana é uma chata de galocha, jesuis...)

Texto corajoso, Juliano. Me lembrou minhas angústias por tudo o que gostaria de ler e não terei tempo suficiente. Na época da faculdade, pirei muito com isso, justo eu, que sempre fui leitora voraz. Até me dar conta de que não tem valor nenhum se empanturrar de livro, que a gente precisa mesmo de um tempo para as idéias irem se assentando. É sofrido, mas compensa.

Anônimo disse...

Meninas, eu realmente não sei se a Ana tem um blogue ou não, na verdade até onde sei não nos conhecemos. De qualquer forma, o espaço aqui é absolutamente aberto para debates, discussões e propaganda dos escritos e dos blogues. Portanto, fiquem à vontade e continuem conversando.

Anônimo disse...

Carol, estou que realmente o caminho é esse, não se abarrotar de leituras sem muito método. Mas confesso que não sei fazer isso. Por isso que me perguntei se talvez a idéia não fosse escrever âs vezes sobre. Mas penso em ficção, e fica difícil...rs.

Gosto muito quando vem ao blogue.

Anônimo disse...

Também gosto de vir aqui, Juliano. Sou sempre bem-recebida por uma sacada inteligente sua, uma palavra bem colocada, um tema interessante. Já está na lista dos meus favoritos.

Unknown disse...

Não acredito que cada livro deva ter um fundo filosófico ou que tenhamos, necessariamente, algo a dizer sobre ele.
Encarte de Cd, revista de moda, de fofoca, rótulo de shampoo... não interessa. Leitura é necessária. É um dos momentos em que ficamos em total solidão, sem nos sentirmos só.
*******

Nada a declarar sobre os comentários da Ana. Muitos comentários de conteúdos válidos já foram postados aqui.
;)

Bjoss

Anônimo disse...

Carol, eba, a Bazófia na sua lista de favoritos é uma honra e um orgulho. Venha sempre.

Anônimo disse...

Mazinha, não sei bem se a leitura é necessária, e se qualquer leitura é necessária, mas concordo que é um bom momento para ficarmos a sós (sem estarmos sós?) e refletirmos. Por isso mesmo que talvez sempre se tenha algo a dizer.

Obrigado por vir ao blogue, volte sempre que puder.