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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Quanto será preciso dizê-lo?

(em virtude da inesperada repercussão desse texto, fui obrigado a colocar este breve prólogo para explicar que em literatura - não que eu ache que faço literatura - autor e personagem, autor e narrador em primeira ou terceira pessoa não se confundem. O que vai abaixo é uma ficção, uma história, uma invencionice. Sugiro a todos, depois da leitura - ou mesmo antes - que entrem no link acima onde explico mais pormenorizadamente o que é a síndrome de Zuckerman que leva o leitor a confundir no texto personagens e narrador com o autor. Vou deixar o link aqui também:  http://julianomachadobazofia.blogspot.com/2007/12/sndrome-de-zuckerman-um-mal-que-ataca.html









Voltei a pé. Havia apenas uma poalha que, ao contrário de incomodar, me ensinava a colocar as mãos para dentro dos bolsos da calça e encolher o corpo, como se sentisse frio, mas não sentia, não ali. O frio, o vento e a chuva estão sempre cá dentro em algum lugar que eu não consigo identificar (mas porque tenho córtex pré-frontal, não sou tão ingênuo, e o romantismo soaria tolo neste momento, então sei que é na cabeça). O enterro foi sereno, triste como todo enterro, banal como todo enterro. Uma pessoa querida, pai de um bom amigo, a família, consternada, chorou muito. A morte não me abate. Mas a vida (não nessas ocasiões, mas em todas as outras) sim.  Considerei digno da parte de deus deixar o dia nublado, um vento frio (eu não sinto frio, mas estava um fiozinho aconchegante) e a garoa tão fina que parecia que alguém tentava chorar, mas sequer podia fazê-lo. A morte sempre será um problema dos vivos, os mortos não têm problemas.

A minha perda foi anterior e a evidência da perda há dois atrás. Mas eu sabia que perderia. Neste caos que se tornou a minha vida, tenho a obrigação de saber, de antemão e com consciência resignada de que serei derrotado. A minha metáfora falsamente kafkiana (eu sou uma fraude) é a da corda-bamba.  A Marlene gosta da expressão "fio da navalha". Eu acho que cair, como sem dúvida cairei (e já caí muitas vezes, o sofrimento quando é novo, é até divertido, e o itabirano maior me contou, ainda eu menino, que isso o divertia no espírito) é pior do que se cortar. A dor não me assusta, me assusta ter de levantar dolorido e meter-me a tentar me suster aqui no alto, com o baraço a se mexer ininterruptamente (um Prometeu frangote).  A absoluta consciência da derrota e da perda não fazem delas menores, nem menos humilhantes, antes demarcam com violência o estado de vazio, a abstenção do olhar.

Pouco percebi do caminho. As inclinações e sujidades do passeio, as pessoas no sentido contrário (estou sempre na contra-mão, ainda que ande pela mão dupla), os cães existindo, o barulho dinâmico da cidade não me tocou. Só sei que eles passaram por mim (ou antes eu passei por eles – a diferença é enorme) porque não é a primeira vez que desço à vila nestas condições e já houve melhores momentos em que me permiti ver, reparar, sentir o que estava em volta. Como o remédio de dormir que já não faz mais efeito, talvez o meu olhar esteja se tornando gris, e o baixo-relevo aqui é imagem para o rés-do-chão (não sento no meio fio porque não me apetece, não que tenha horário ou compromisso a esperar), mas hoje prefiro o silêncio. Cheguei em casa, e fui ler o que havia escrito, o emeio em que contei quem eu sou, de fato, sem piedade e sem dar margem a qualquer confusão, ainda que você goste de mim.

Admitir para si mesmo o fracasso pode ser, em algumas situações, o passo para transpô-lo, para reiniciar, para intentar um novo projeto. Li isso em algum livro de auto-ajuda. Porque é tudo besteira. O caos que a vida é não está interessado em boas intenções e se isso não fosse o bastante, a culpa é minha, toda minha. Tive os meios de não me tornar no que me tornei e perdi as oportunidades uma a uma como quem se serve de um doce pensando que ele nunca vai terminar. A verdade é que minha história é, como lhe contei, uma sucessão de erros e más escolhas, a sempre presente mania de comparecer aos meus próprios desencontros, de modo que fui obrigado a dizer-lhe que não existem desculpas nem perdão, muito menos qualquer esperança para mim.

Eu sei que deveria ter-lhe dito o que escrevi em sua frente, olhando nos seus olhos. Não creio que isso fosse impedi-la de ir embora, como de fato não impediu, mas ao menos eu teria sido honrado o suficiente mostrando o exaspero pelo que eu sou é sincero. E por isso você está freqüentemente em outra cidade (não importam as distâncias – a distância é sempre apenas uma). Eu jamais poderei ir ao seu encontro, a não ser eventualmente e isso, por si só, me humilha como se eu fosse um bicho sujo que rasteja, e lento, só pode andar poucos metros por dia. Não é bem uma metáfora, é uma impossibilidade logística e como toda coisa ridícula da qual tenho medo e vergonha, apenas uma repetição. Dizer, à la Caio Fernando Abreu, que cheguei ao meu limite, que não sinto gozo ou tormento, que os olhos não vêem é de uma covardia que nem eu vou alcançar desta vez.

Eu fico parado em frente ao ecrã do computador. Giro uma página, giro outra, leio um blogue de que gosto, passeio pela rede social. Tomo um livro, leio-lhe vinte páginas, torno ao jornal e vou finalmente varrer o quintal. Aquela poalha da manhã transformou-se numa enorme bátega, com ventos cortantes que desfolharam a árvore das traseiras da casa. Tudo isso enquanto lia aqui, e aqui escrevia este texto que pretendo publicar em meu blogue. Há na tarefa que farei daqui a instantes algo muito peculiar que é transformar a tristeza latente em resignada. Como? Geometria. Acomodarei os montículos de folhas separados em formas geométricas nos grandes quadrados de concreto que estão para além dos assimétricos e não-lineares tijolinhos que formam a cerca que delimita o jardim.  Posso tentar, se quiser, antes de meter para o saco de lixo as folhas que "irremediavelmente sobejam no quintal" espalhar num dos quadrantes e procurar, quem sabe? algum padrão fractal estatístico. É faina que ocupa a cabeça não ao ponto de esquecer todo este desencontro em que nos metemos, mas para... eu já expliquei (preciso me lembrar de que já te disse o que tinha de dizer pela internete – ao invés de ao vivo – e que este texto é para os pobres leitores do meu blogue, e não para você. É, eu tenho um blogue, um blogue que você lê. E tenho pouca coisa além disso.

Há uma saída que implique em, além de aceitar que não possuo meios materiais de acompanhá-la, dê conta de que é pouco provável que uma personalidade melancólica de crisalha venha a cantar como um japiim? Posso considerar que tirar a barba, cortar o cabelo, arrumar um emprego de entregador e pedir que diga à sua família que eu vou daqui para adiante crescer como nunca antes se viu mudar o fato de que, a despeito de tudo isso (que não é verdade, nós todos sabemos) ainda continuarei a ser descrente, desinteressado e sem compreensão do sentido geral das coisas? Penso num grande feito: ficar muito rico, escrever um livro, salvar uma criança num prédio em chamas, descobrir um esquema de corrupção na merenda escolar, a resolução de um teorema matemático daqueles que valem milhões (novamente ganhar dinheiro), e tudo isso me soa vazio como, ao voltar da varreção do quintal, ir ler Hamlet ou Fernando Pessoa ou até mesmo Freud. Sabe por quê? Porque a permanência não está em parte alguma (e como sou desprezível mas não mentiroso, cito que esta frase essencial é de Rilke e não minha). É por isso que não peço mais para ficar e espero que você vá, ou melhor, que continue. E peço aos leitores deste blogue que me perdoem o estilo confessional de um texto que não sabe o que é, e que procurem outro blogue para ler, este vai acabar pois já acabou faz muito tempo.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Livros

"Ai que prazer
Não cumprir um dever
Ter um livro pra ler 
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é  nada(...)

(...)Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma(...)"

Fernando  Pessoa in "Liberdade"




Tuberculose

Tomei contato com a obra de Critovão Tezza em meados de 2009, ano em que seu livro "O Filho Eterno" açambarcou todos os prêmios possíveis em língua portuguesa (o que rendeu ao autor além de fama e reconhecimento uma considerável – considerável mesmo – quantia em dinheiro). Encantei-me pelo livro, e em conseqüência pelo escritor, de maneira que lhe fui ler outras obras.  Num dos livros que campeei, "Trapo", história de um jovem poeta que se suicida (não atrapalho a leitura de ninguém, isso é dito na primeira página do livro), achei lá um trecho em que o protagonista deixa escrito que lhe falta uma tuberculose. Batata: lembrei-me que, também adolescente, metido a escrever versos (não bons como nos faz supor o narrador do livro do Tezza seriam o do poeta suicida) também pedia, num poemeto pacóvio, um lustre e uma tuberculose (o lustre tinha que ver lá com o tema do meu poema e é absolutamente desnecessário citar aqui). Imagino que nove entre dez adolescentes que foram razoáveis leitores em suas épocas de colégio (e razoavelmente tristes também), escreveram versos e pensaram em tuberculoses e nos poetadas malditos, Alvarez de Azevedo da vida. Então, achar aí alguma grande coincidência literária seria ingênuo, o que não fez da leitura e da comparação menos gostosa (pô, fui um adolescente metido a poeta e triste, e queria ter tuberculose, cara!). Deixo a dica de um excelente escritor contemporâneo: recomendo vivamente Cristovão Tezza nos livros "O Filho Eterno" e "Trapo", ao menos.

Altura

Na última terça-feira li na Folha de S. Paulo uma interessante matéria a respeito de um rapaz, morador de rua em São Paulo, que por medo da violência (ele se refere ao menos a dois episódios marcantes, quando queimaram sete mendigos na Sé em 2004 e da execução de cinco moradores de rua no Jaçanã em 2010 – pausa: Por que diabos Adoniran Barbosa diz na famosa canção "moro EM Jaçanã, se eu perder esse trem..."? Não sou paulistano, mas estou muito enganado ou se chama o bairro aí por no Jaçanã?), retomo. André Luís Rodrigues Agusto, 23 anos, analfabeto puríssimo, como ele mesmo se autodefine, resolveu morar a seis metros de altura do chão numa figueira-branca no centro da capital. Embora não se sinta exatamente feliz por lá morar, diz que a altura não o incomoda, que as pessoas embaixo falam com ele, suas namoradas sobem na árvore à noite, mas que, obviamente, pretende ainda mudar de vida "porque ninguém quer morar numa arvore pra sempre".
Acrofobia. É nome que se dá para quem tem medo de altura. Eu tenho, muito. Não chego perto de para-peitos nem de sacadas de prédio. Cenas em filmes e pessoas em locais altos e desprotegidos me causam mal estar grande. A ciência não explica perfeitamente o porquê, mas pode ser algum trauma de infância, embora haja uma linha de pesquisa ainda bem inicial que relaciona à um problema genético, uma certa alteração que se verificou em pessoas com medo de altura (em Portugal chamam graciosamente a essas pessoas de sofredores da atracção do abismo). É claro me lembrei de Kafka. E fui ao conto preciso, assim que terminei de ler a matéria. "A Primeira Dor", do livro "Um artista da fome/A Construção". Nesse conto o protagonista é um trapezista que, para aperfeiçoar infinitamente sua arte, vive no trapézio. Nunca sai de lá. É apenas abordado pelos que trabalham nos reparos das estruturas superiores do circo e por outros trapezistas menores a quando do espetáculo. Não vou contar o resto para não estragar a história, mas a patente diferença entre a metáfora kafkiana da solidão relacionada à altura e a incompreensão de quem não vê o outro fica evidente como o paradoxo dos moradores de rua: no chão, deitados, são parte da paisagem da metrópole e nem notados, quando um subiu na vida, foi visto e saiu até no jornal. Recomendo vivamente a leitura do livro do Kafka e desse conto em questão, para que saibam que fim toma o nosso herói trapezista (do nosso herói da figueira duvido que ouviremos falar novamente). Em tempo: no mesmo dia, o jornal publicou matéria em que pesquisas indicam que a aplicação de cortisol em pacientes em tratamento contra fobias (sobretudo acrofobia) tem resultados porcentuais muito melhores do que o grupo de controle tomando placebo, como se o cortisol servisse para ajudar a concentração do cérebro para aprender a lidar com a fobia.

Comuns

Essa literatura feita de homens comuns, de gente ordinária, me interessa sobremaneira. Não é uma crítica aos clássicos, aos Hamlets e Odisseus, até porque venero os clássicos. Mas há ótima literatura (até nos clássicos) tratando a gente ordinária e colocando a vida em seu devido lugar: passageira, tênue, precária e breve. Se considero banal que um jovem escreva versos quando triste na adolescência e digo que eu mesmo passei por isso, se trago ao nível da percepção do isolamento e da inadequação um morador de rua que escolhe uma árvore para viver, se trato um trapezista maluco como apenas um solitário sem par é porque somos homens comuns, tentando sobreviver em meio à "opacidade do mundo". Quando esses meninos envelhecem, ainda continuam banais.
Philip Roth escreve um belíssimo romance chamado "Homem Comum" em que descreve e destila a vida de um sujeito absolutamente normal, imerso num cotidiano cercado pelas mazelas do dia a dia, as frustrações das más escolhas, as pequenas felicidades e tudo quanto forma a vivência de todos os dias. Roth se concentra, na verdade, na velhice.  Mesmo durante a juventude da personagem, o questionamento sobre a existência é um totalizante mal estar quanto ao fim inexorável da vida. Mas Roth vai além. Explica como a velhice não é uma batalha, mas um massacre, e um massacre que tende a se tornar solitário (como melhor ainda explica Norbert Elias em "A Solidão dos Moribundos"). Recomendo vivamente a leitura de "Homem Comum", de Philip Roth.

Morte

Quando forem ler o livro de Philip Roth, na primeira página encontrarão a descrição de seu enterro. Portando nada estrago dizendo que ele morre. Assim como em "A Morte de Ivan Ilitch", uma estupenda novela de Tolstói (na qual não tenho a menor dúvida Roth bebeu para escrever seu romance), pelo título nada atrapalharei a quem for se aventurar a ler dizendo que Ivan vem a falecer. Ivan Ilitch é um homem desprezível e banal. Mas enfermo, passa a reparar em coisas que antes não prestava atenção. Aqui se trata de notar que  diante da fragilidade da existência (a tuberculose e o suicídio dos poetas, a solidão dos esquecidos, o massacre acachapante aos idosos) é o momento em que nos tornamos ainda mais parte de uma coisa só, mais comuns, mais banais, mais atados ao medo ontológico que nos define, e então conscientes do quão ingente é o caráter transitório da vida. Não vou contar as mudanças ou não mudanças na atitude das personagens todas descritas na hora de morrer (exceto nosso amigo da figueira que ainda deve – saberá deus – estar vivo), mas dou uma dica para Ilitch: Tolstói ainda não era um benevolente e recluso pastor de almas como foi ser no final de sua vida. Recomendo vivamente a leitura da novela "A Morte de Ivan Ilitch" de Liev Tolstói.

Rir

Euclydes da Cunha, embora tenha sido quem foi, se sentia um homem ordinário e dizia: "nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja". Apesar de tudo quanto produziu, Euclydes sofreu com as pequenas coisas comezinhas do cotidiano avassalador que assola a todos nós e sua morte foi, dizem-no muitos, mais um suicídio do que um assassinato (morreu num duelo com o amante de sua esposa). Só como curiosidade, seus parceiros, incentivadores da república, Raul Pompéia: também se matou; Silva Jardim: acreditem – caiu dentro do Vesúvio. Manuel Bandeira dizia "tenho medo de ter medo na hora de morrer". Alguns têm, outros não terão, isso mais nos afasta como homens comuns do que nos aproxima. O que, então?
Bergson nos ensina que "o riso de si mesmo é capacidade somente humana" (eu acrescento: o jacaré chora, por exemplo).  Bakhtin e Freud disseram cada um a sua maneira que o riso zombeteiro pode enfrentar a dor e a obscuridade de encarar a morte. E por fim, recentemente, o Roberto Damatta retomando outros grandes contou-nos que o riso ou rir dos poderosos, dos políticos poderia ser aquilo que como a morte nos coloca a todos como seres humanos comuns. Há um poeta de que cada vez gosto mais que se chama Nelson Ascher. Contemporâneo, vivíssimo e em plena atividade, publicou seu último livro de poesias em 2005. A poesia de Ascher é irônica sem ser cínica e nos convida, sabendo que "todos os trilhos vão dar no matadouro", a olhar para o fim silencioso e brutal com a única das armas possíveis: o humor. A sátira, então, para estes pensadores e para o nosso poeta seria a maneira de lidar com a banalidade da vida e com a conformidade de que todos somos, de alguma maneira, comuns em momentos pontuais de nossas vidas. Ao final, o que eu pretendia dizer é que não há respostas para perguntas que se refiram ao sentido das coisas e da existência humana, que a vida é miserável e comum, mas que ao menos podemos aproveitar para ler uns bons livros enquanto ainda nos resta a visão e um tempinho cá na Terra (que como tudo, vai acabar também). Recomendo vivamente a leitura de "Parte Alguma" de Nelson Ascher.

"O FILHO ETERNO".  TEZZA, Cristovam, Record, 2009.

"TRAPO". IDEM.

"UM ARTISTA DA FOME/A CONSTRUÇÃO". KAFKA, Franz, Companhia das Letras, 1998

"HOMEM COMUM". ROTH, Philip, Companhia das Letras, 2006

"A MORTE DE IVAN ILITCH". TOLSTOI, Liev, Edições Saraiva, 1963

"PARTE ALGUMA". ASCHER, Nelson, Companhia das Letras, 2005.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Correr e a morte

Estive no consultório médico a ver se conseguiria sanar um problema ortopédico que me impede de correr. Correr é, para mim, muito mais importante do que ler e incomparavelmente mais importante do que escrever. Já sei (o analista me contou) que não devo transformar o esporte numa panacéia, pois simplesmente posso perder a possibilidade de fazê-lo e não dá para enlouquecer por isso – a aliteração é proposital porque me deu a idéia de pistão (ele não comentou, mas há outras panacéias – não na minha vida, claro esteja – como o amor, o trabalho, a bebida ou, porque não? a própria análise).

Eu vejo isso mais ou menos como desbastar arestas. Não no sentido do confronto entre o dionisíaco e apolíneo (porque não creio que haja espaço de crescimento e muito menos, por óbvio – ainda que a carga de Apolo a carregar seja justamente o contraponto pérfido do mito – esteja já finalizado como o deus sol), mas no sentido de um joanete. Não sei se se desbastam joanetes. Quem sabe uma lixa (normalmente se troca o calçado, acredito). Aqui é uma lima que vai esboroando o excesso de um conjunto que não é estátua, nem escultura, tampouco arte, que de tão insípido talvez nem seja um arquétipo. Fazendo luz nessa presunçosa ladainha pseudo-erudita (vulgar, pilantra e pedante, como tudo o que sou): alongamento para o joelho, musculação para a perna e voltar a correr só não são uma panacéia porque tudo é panacéia, e quando tudo é alguma coisa, matematicamente não é coisa alguma.

Chegamos ao ponto fulcral, diria o antigo esculápio ou o militante. Nada faz o menor sentido. Tenho insistentemente citado e falado de Aubade do Philip Larkin porque quando tudo caminha para uma despedida que só pode ser silenciosa e brutal, eu não consigo enxergar a única consolação que é o humor. Larkin não vê graça nisso, e eu não vejo também. Outro poeta vê, e acredita que todos meditemos na segunda lei da termodinâmica, embora saiba que todos os trilhos vão dar no matadouro. Eu sempre achei que o caminhar levaria a uma possível confrontação com a tranquildade da certeza inexorável e por isso durante muito tempo gostei da frase do Luis (o da Natureza da Mal) que dizia mais ou menos assim (aliás esta frase está repetida incontáveis vezes em incontáveis textos barra à baixo): “o momento de grande reconciliação com a falta de sentido de tudo”. Mas esses momentos têm se tornado raros e não mais freqüentes com o passar do tempo (tempo que hoje em dia assinalo através da posologia de trecos como clonazeplam, flunitrazepam e isrs de paroxetina – aliás esta porcaria de texto forçado, arrancado e horrível é sob os efeitos cada vez menos reconfortantes desses nomes difíceis - em certo sentido, como escreveu Sêneca, todos os remédios são paliativos, porque é possível vencer a doença mas não a morte).

Mas como não pretendo matar meus pouquíssimos e pacientes leitores antes de a mim mesmo (o que seria uma indelicadeza, mas sobretudo um desperdício do meu tempo), a morte, como disseram tantos outros (mas o que me contou por último com ênfase sociológica foi Norbert Elias), é um problema dos vivos, os mortos não têm problemas, este texto vai parar por aqui com só mais duas ou três palavrinhas. Drummond ensinava que só valia a pena fazer citações quando elas fossem totalmente inesperadas e que também deveríamos evitar as frases de efeito. Mas como parece cada dia mais ficar claro que não posso seguir os conselhos do itabirano e muito menos criei um estilo que me permita fugir da blague de uma citação ociosa, deixarei a pergunta seminal que martela a minha cabeça da hora em que acordo (sabe o fígado ainda o quanto dopado) à hora em que vou dormir (dopado): "Se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos, que importa deixá-lo antes? Seja o que for". (Hamlet, ato III, cena II). Já alguém disse mesmo que o príncipe era mais sábio que o próprio bardo. Acho que a prova é que somente um morreu.

p.s. - já me desculpei, mas o faço de novo por o texto não ter saído na data combinada, às terças-feiras.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Divino

O boteco do seu Divino fica na Marechal Deodoro da Fonseca esquina com a avenida Cientista Frederico de Marco. Chama-se Divino´s Bar, pois. Todos os dias, logo que o dia começa a querer ir embora, por volta das dezessete e trinta e oito, formam-se as mesas de truco com os ébrios presentes. Evidente que o grau de embriaguez varia de freguês para freguês, mas não se tem notícia de jogador ou torcida que tenham pedido groselha (não conta o Geraldinho, que foi buscar uma coca-cola pet para a mãe e aproveitou para escutar um seis e comprar chiclete). As pelejas seguem até por volta das onze da noite, horário limite convencionado mais ou menos naturalmente, uma vez porque a vizinhança tranquilha do bairro tolera até com boa vontade a rapaziada, outra vez porque a pinga ingerida é tamanha que a essas horas muitos heróis já tombaram.

As portas do boteco do seu Divino têm com freqüência aparecido fechadas. Cruz na porta do Divino´s. Quem morreu? O próprio Alves. Seu Alves foi o primeiro de uma série de seis fechamentos no lapso de um mês. O dono do lugar explicou que chega uma certa hora em que a idade e os maus tratos da cachaça começam a furtar os bons amigos aos borbotões. Argumentou, com pesar divido, que não podia abrir o boteco no dia do falecimento de um companheiro de sina. Especula-se que talvez funcione como em Mangueira, onde ao morrer um poeta todos choram, de modo que seu Divino viva feliz em Divino´s porque alguém há de chorar quando ele morrer. Esse afastamento do medo de morrer sozinho faz a paga do prejuízo amealhado com o dia de trabalho perdido nos dias do velório: porque é assim, fecha-se o bar somente no dia mesmo do velório. O data da morte e do enterro são convenções de outra burocracia.

Estando assente e facilmente verificável no dia-a-dia dos convivas que se estava a morrer amiúde no boteco, cotizaram-se os companheiros a reunir recursos financeiros destinados à compra das coroas de flores dos futuros finados (isso foi lá pela altura do passamento do seu Mário, terceiro ou quarto contando a partir do Alves, embora ninguém o saiba ao certo). Ao contrário dos mortos, que nunca o estavam meio, a empresa deu mais ou menos certo, pois: a) houve certa dificuldade em arrecadar uns trocados, porque diminuíam a quantidade dos tragos, mas seu Divino com tino, comercial, baixou um desconto na cachaça correspondente à diferença entre a idade do defunto e cem anos, nos três dias de luto oficial subseqüentes (esse fato gerou também uma renda extra por meio de um bolão não sobre os defuntos, mas a somatória das diferenças das últimas três mortes, já que virou moda ninguém mais lembrar a ninguém com quantos anos andava); b) as coroas passaram a ser entregues à cabaceira dos ataúdes com as inscrições de praxe seguidas da seguinte frase: “dos amigos do Divino´s ainda do lado de cá, esperando que o Divino Senhor o receba contente”. Em princípio as famílias aplaudiram o gesto de boa vontade e lembrança dos companheiros de copo, mas então um parente do Julio Andochama (o Julinho das Canelas), rapaz novo mas já observador dos bons costumes, achou de perguntar quem houvera criado a frase. A má sorte foi que seu Juarez, um dos truqueiros mais antigos do Divino´s, apontou para o Chiqunho, que efetivamente fora o criador da sentença, bem no momento em que este caia em cima do colo de duas primas do falecido de ocasião, sendo que no estabanado movimento de desvencilhar-se das senhoras, a uma levantou-lhe largamente as saias. Chiquinho era o mais frequentemente bêbado entre todos os freqüentadores do boteco, e recebeu, por ironia, a última coroa de flores dos amigos do bar, alguns meses depois. Após o sucedido, a homengem florística era aceita ainda, mas nunca bem recebida.

Seu Divino ouviu de alguns dos familiares da vizinhança que era melhor acabassem com aquela carpideira poupança, pois todos por ali andavam a torcer o nariz para a idéia de receber a coroa dos bêbados do bar. Houve até uma senhora que especulou não seria a palavra “contente” do excerto uma galhofa que remetesse a uma possível embriaguez de Deus no recebimento do defunto da dita confraria. Foi quando João morreu, o sétimo ou oitavo tomando por início o Alves. Por um daqueles instantes de afinidade mental quase inacreditável reuniram-se ao mesmo tempo os fregueses à frente das portas fechadas do bar Divino´s. Deu-se assembléia em que ficou decidido que não mandariam, afinal, a coroa de flores, e que o dinheiro seria juntado ao montante das apostas do truco do dia seguinte. Seu Divino concordou, mas obstou que era necessário que então se fizesse, de alguma maneira, uma homenagem ao falecido que não receberia as flores: comprariam um troféu (simples), que receberia o nome do morto. Tomado o gosto pelas deliberações, propôs-se ao seu Divino que abrisse o bar no dia do velório dos próximos chamados por Jesus, comprometendo-se aqueles desclassificados no torneio oficial em homenagem ao falecido a comparecerem o mais depressa possível no velório, a representar o bar.

O Divino´s bar agora não fecha mais as portas quando algum freguês vai dessa para a melhor. Como em Mangueira, que chora os poetas quando morrem, o bar da Marechal Deodoro da Fonseca com a Cientista Frederico de Marco não deixa seus irmãos sozinhos na hora do último adeus. A pinga tem o desconto da diferença da idade, o total da aposta do truco é bom dinheiro mesmo descontado o troféu que carrega o nome do defunto, as portas só se fecham quando o trio vencedor vai embora. Se calhar de alguém arranjar um violão, acredita-se que um sambinha até vá nascer a quando dos futuros passamentos.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Eu vou morrer

Eu vou morrer. "Tô terminando a prestação do meu buraco, meu lugar no cemitério pra não me preocupar de não mais ter o onde morrer. Ainda bem que nos mês que vem posso morrer, já tenho o meu tumbão" (Raul Seixas, Fim de Mês). Hoje eu descobri que vou morrer. Pois é, eu vou. Não sei exatamente quando, porque sou novo e minha saúde é irritantemente boa. Alimento-me muito bem e faço ginástica com regularidade de modo a manter minha pressão arterial apta a vencer qualquer escada sem precisar de um coração de três motores. Na minha idade, nunca me havia preocupado em começar a pagar jazigo ou cova com palmos ou sem palmos medida. É claro que já imaginara (se por acaso então cogitasse falecer) que um dia seria enterrado junto aos meus, de aqui ou acolá, e é bem verdade que sempre me interessou a idéia de ser depositado no mesmo cemitério do meu avô paterno, local ecumênico, bonito gramado salpicado de símbolos em concreto pintados de branco. Aliás, esse meu avô Joel, que lá sepultado não é mais que pó, sequer crânio de Yorick, foi quem me cantou a musiquinha do avião de pouco uso precisado de três amores.

Mas hoje soube que vou morrer. E descobri isso da maneira mais simples: já tenho onde ser enterrado. Cuidando das coisas de vovó, verifiquei ser beneficiário de plano funerário que cobre traslado, velório e jazigo, tudo quitadinho à espera silenciosa de eu bater as botas. Não é mordomia ou mau agouro para com a minha exclusiva pessoa: Vó Isabel cuida com desvelo dos tramites do passamento de todos os netos, além, é claro, dos três filhos que ainda estão bem vivinhos da Silva, Machado Silva. Eu não sei bem o que pense: ela que cuidou como lhe foi possível e bem (e tem cuidado) enquanto estamos todos vivos, resolveu estender os carinhos até, ao menos, o túmulo (é preciso, por dever de consciência, dizer que se dependesse dela, religiosa como poucas, também cuidaria do além-túmulo, intercendendo por nós junto a Ele, que segundo ela a tem em alta conta. Não respondo pelos demais dependentes do plano funerário, mas de minha parte pretendo entrar sem referências ou deferências na sala de deus, devendo, a meter-lhe pelas fuças o dedo em riste cobrando um pouquinho mais do meu demenso).

Sabe, eu não pretendia morrer. Tinha decidido firmemente transpor os séculos, impassível, soberbo e observando os tolos mortais deitarem papéis de sorvetes de limão pelo passeio. Mas diante da descoberta de que tenho já lugar cativo debaixo da terra, e melhor ainda, com serviço completo das fainas envolvidas, vou citar Manuel Carneiro de Sousa Bandeira: sei que é grande maçada morrer, mas morrerei. E lembrando também o meu parente Machado de Assis (Lívia, ele se chama Joaquim Maria), agradeço à Vó Isabel esse conforto plácido de saber-me onde descansar a carcaça nada hamletiana: que a terra me seja leve, já que está quitada.
p.s. - peço desculpas aos leitores por não ter publicado o texto na terça, e depois atrasado quando disse que o faria na quinta. Realmente tive contratempos, mas espero que isso não se repita.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A morte do pica-pau

(clicando-se no título deste post, chega-se à "As flores de plástico")
Existe época de aves? Digo, assim como época de morango, florada de azaléia e assim por diante? Eu prometo que não sei, mas poderia bater o pé e fazer preces de que estamos na época dos pica-paus. Só assim eu poderia conceber que tenha visto tantos deles por aí, numa profusão que transcende em muito o comum de olhar e ver pica-paus.

Mesmo agora quando saí para a corridinha do fim de tarde foram três! Note bem, estou falando de três pica-paus! Em área urbana, ainda que bastante arborizada. Supondo que dois formavam o casal, quem era o terceiro? O filho? Muito crescido para ainda ter com os pais. O amante? Bom, não sou ornitólogo e desconheço os costumes sexuais dessas aves.

Fiquei percebendo que a primeira idéia, meio platônica por assim dizer, que me surge à mente quando penso em pica-pau é o da Universal Estúdios, criado pelo Walter Lantz na década de quarenta. Bem, nada mais diferente do que o nosso pica-pau tupiniquim, que muitas vezes tem um ventre amarelo de plumagens que vão até ao pescoço, envolvendo-lhe pelo dorso que tromba, por fim, no indefectível topete vermelho, este sim, inconfundível. O pica-pau do desenho animado todo mundo sabe como é, e pica-pau azul claro todo mundo também sabe que não existe (para não falar do bico ama

Este texto queda-se aqui. Isto não é Kafka e nem pretende, mas vou arriscar, como se estivesse frente a frente com quem me lê, em conversa grave. Não vejo mais sentido agora em falar de pica-paus. Acabo de saber da morte de duas irmãs gêmeas, em acidente na estrada que liga Bueno de Andrade à minha Araraquara. Vinte e um anos. Parece-me perderam o controle do veículo. Eu não sei exatamente o que pensar sobre isso, mas me chocou. Chocaria a qualquer um? Morreram oito pessoas no acidente com o Learjet em São Paulo, são mortes menos chocantes? Há como valorar isso? Eu não conhecia as meninas que morreram, mas será que a proximidade geográfica, o fato de eu mesmo passar com alguma freqüência pela estrada em questão são ingredientes para me comover mais? Repito, eu não sei.

O que sei é que Sêneca tem razão, que Hamlet tem razão e que Larkin tem razão. Manuel Bandeira tem razão, pois a vida é uma agitação feroz e sem finalidade. Muitos outros ainda têm razão. Quem não tem razão sou eu: minha única sorte é não acreditar em deus e não ter que me revoltar com ele, não acreditar em destino e não ter que com ele me preocupar. A estupidez da vida é algo tão latente que não consigo sequer pensar em filosofias. Seria culpa de ter uma percepção demasiado acentuada do caráter transitório da vida? Seria problema com neurotransmissores? Seria fingimento de quem não tem opinião, e tem medo? Eu não sei. Sei apenas que a morte, surda, caminha ao lado. Afinal, como notaram as minhas flores de plástico: "(...) a percepção arrastada ao longo dos séculos de que afinal, à morte, ninguém pode fazer esperar eternamente, corroborando com isso o príncipe hamlet, que muito anteriormente havia dito que se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos, que nos importa deixa-lo antes?

p.s. – escusado dizer que o título do texto não seria este, e que o texto, mesmo, também não seria. Mas absolutamente perdi o fio da meada e não consegui retomar o argumento das aves de topete vermelho. Deu no que deu, só posso pedir desculpas, ainda que melhor seria não tê-lo publicado.