Voltei a pé. Havia apenas uma poalha que, ao contrário de incomodar, me ensinava a colocar as mãos para dentro dos bolsos da calça e encolher o corpo, como se sentisse frio, mas não sentia, não ali. O frio, o vento e a chuva estão sempre cá dentro em algum lugar que eu não consigo identificar (mas porque tenho córtex pré-frontal, não sou tão ingênuo, e o romantismo soaria tolo neste momento, então sei que é na cabeça). O enterro foi sereno, triste como todo enterro, banal como todo enterro. Uma pessoa querida, pai de um bom amigo, a família, consternada, chorou muito. A morte não me abate. Mas a vida (não nessas ocasiões, mas em todas as outras) sim. Considerei digno da parte de deus deixar o dia nublado, um vento frio (eu não sinto frio, mas estava um fiozinho aconchegante) e a garoa tão fina que parecia que alguém tentava chorar, mas sequer podia fazê-lo. A morte sempre será um problema dos vivos, os mortos não têm problemas.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Quanto será preciso dizê-lo?
Voltei a pé. Havia apenas uma poalha que, ao contrário de incomodar, me ensinava a colocar as mãos para dentro dos bolsos da calça e encolher o corpo, como se sentisse frio, mas não sentia, não ali. O frio, o vento e a chuva estão sempre cá dentro em algum lugar que eu não consigo identificar (mas porque tenho córtex pré-frontal, não sou tão ingênuo, e o romantismo soaria tolo neste momento, então sei que é na cabeça). O enterro foi sereno, triste como todo enterro, banal como todo enterro. Uma pessoa querida, pai de um bom amigo, a família, consternada, chorou muito. A morte não me abate. Mas a vida (não nessas ocasiões, mas em todas as outras) sim. Considerei digno da parte de deus deixar o dia nublado, um vento frio (eu não sinto frio, mas estava um fiozinho aconchegante) e a garoa tão fina que parecia que alguém tentava chorar, mas sequer podia fazê-lo. A morte sempre será um problema dos vivos, os mortos não têm problemas.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Livros
Tuberculose
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Correr e a morte
Estive no consultório médico a ver se conseguiria sanar um problema ortopédico que me impede de correr. Correr é, para mim, muito mais importante do que ler e incomparavelmente mais importante do que escrever. Já sei (o analista me contou) que não devo transformar o esporte numa panacéia, pois simplesmente posso perder a possibilidade de fazê-lo e não dá para enlouquecer por isso – a aliteração é proposital porque me deu a idéia de pistão (ele não comentou, mas há outras panacéias – não na minha vida, claro esteja – como o amor, o trabalho, a bebida ou, porque não? a própria análise).
Eu vejo isso mais ou menos como desbastar arestas. Não no sentido do confronto entre o dionisíaco e apolíneo (porque não creio que haja espaço de crescimento e muito menos, por óbvio – ainda que a carga de Apolo a carregar seja justamente o contraponto pérfido do mito – esteja já finalizado como o deus sol), mas no sentido de um joanete. Não sei se se desbastam joanetes. Quem sabe uma lixa (normalmente se troca o calçado, acredito). Aqui é uma lima que vai esboroando o excesso de um conjunto que não é estátua, nem escultura, tampouco arte, que de tão insípido talvez nem seja um arquétipo. Fazendo luz nessa presunçosa ladainha pseudo-erudita (vulgar, pilantra e pedante, como tudo o que sou): alongamento para o joelho, musculação para a perna e voltar a correr só não são uma panacéia porque tudo é panacéia, e quando tudo é alguma coisa, matematicamente não é coisa alguma.
Chegamos ao ponto fulcral, diria o antigo esculápio ou o militante. Nada faz o menor sentido. Tenho insistentemente citado e falado de Aubade do Philip Larkin porque quando tudo caminha para uma despedida que só pode ser silenciosa e brutal, eu não consigo enxergar a única consolação que é o humor. Larkin não vê graça nisso, e eu não vejo também. Outro poeta vê, e acredita que todos meditemos na segunda lei da termodinâmica, embora saiba que todos os trilhos vão dar no matadouro. Eu sempre achei que o caminhar levaria a uma possível confrontação com a tranquildade da certeza inexorável e por isso durante muito tempo gostei da frase do Luis (o da Natureza da Mal) que dizia mais ou menos assim (aliás esta frase está repetida incontáveis vezes em incontáveis textos barra à baixo): “o momento de grande reconciliação com a falta de sentido de tudo”. Mas esses momentos têm se tornado raros e não mais freqüentes com o passar do tempo (tempo que hoje em dia assinalo através da posologia de trecos como clonazeplam, flunitrazepam e isrs de paroxetina – aliás esta porcaria de texto forçado, arrancado e horrível é sob os efeitos cada vez menos reconfortantes desses nomes difíceis - em certo sentido, como escreveu Sêneca, todos os remédios são paliativos, porque é possível vencer a doença mas não a morte).
Mas como não pretendo matar meus pouquíssimos e pacientes leitores antes de a mim mesmo (o que seria uma indelicadeza, mas sobretudo um desperdício do meu tempo), a morte, como disseram tantos outros (mas o que me contou por último com ênfase sociológica foi Norbert Elias), é um problema dos vivos, os mortos não têm problemas, este texto vai parar por aqui com só mais duas ou três palavrinhas. Drummond ensinava que só valia a pena fazer citações quando elas fossem totalmente inesperadas e que também deveríamos evitar as frases de efeito. Mas como parece cada dia mais ficar claro que não posso seguir os conselhos do itabirano e muito menos criei um estilo que me permita fugir da blague de uma citação ociosa, deixarei a pergunta seminal que martela a minha cabeça da hora em que acordo (sabe o fígado ainda o quanto dopado) à hora em que vou dormir (dopado): "Se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos, que importa deixá-lo antes? Seja o que for". (Hamlet, ato III, cena II). Já alguém disse mesmo que o príncipe era mais sábio que o próprio bardo. Acho que a prova é que somente um morreu.
p.s. - já me desculpei, mas o faço de novo por o texto não ter saído na data combinada, às terças-feiras.
terça-feira, 10 de junho de 2008
Divino
As portas do boteco do seu Divino têm com freqüência aparecido fechadas. Cruz na porta do Divino´s. Quem morreu? O próprio Alves. Seu Alves foi o primeiro de uma série de seis fechamentos no lapso de um mês. O dono do lugar explicou que chega uma certa hora em que a idade e os maus tratos da cachaça começam a furtar os bons amigos aos borbotões. Argumentou, com pesar divido, que não podia abrir o boteco no dia do falecimento de um companheiro de sina. Especula-se que talvez funcione como em Mangueira, onde ao morrer um poeta todos choram, de modo que seu Divino viva feliz em Divino´s porque alguém há de chorar quando ele morrer. Esse afastamento do medo de morrer sozinho faz a paga do prejuízo amealhado com o dia de trabalho perdido nos dias do velório: porque é assim, fecha-se o bar somente no dia mesmo do velório. O data da morte e do enterro são convenções de outra burocracia.
Estando assente e facilmente verificável no dia-a-dia dos convivas que se estava a morrer amiúde no boteco, cotizaram-se os companheiros a reunir recursos financeiros destinados à compra das coroas de flores dos futuros finados (isso foi lá pela altura do passamento do seu Mário, terceiro ou quarto contando a partir do Alves, embora ninguém o saiba ao certo). Ao contrário dos mortos, que nunca o estavam meio, a empresa deu mais ou menos certo, pois: a) houve certa dificuldade em arrecadar uns trocados, porque diminuíam a quantidade dos tragos, mas seu Divino com tino, comercial, baixou um desconto na cachaça correspondente à diferença entre a idade do defunto e cem anos, nos três dias de luto oficial subseqüentes (esse fato gerou também uma renda extra por meio de um bolão não sobre os defuntos, mas a somatória das diferenças das últimas três mortes, já que virou moda ninguém mais lembrar a ninguém com quantos anos andava); b) as coroas passaram a ser entregues à cabaceira dos ataúdes com as inscrições de praxe seguidas da seguinte frase: “dos amigos do Divino´s ainda do lado de cá, esperando que o Divino Senhor o receba contente”. Em princípio as famílias aplaudiram o gesto de boa vontade e lembrança dos companheiros de copo, mas então um parente do Julio Andochama (o Julinho das Canelas), rapaz novo mas já observador dos bons costumes, achou de perguntar quem houvera criado a frase. A má sorte foi que seu Juarez, um dos truqueiros mais antigos do Divino´s, apontou para o Chiqunho, que efetivamente fora o criador da sentença, bem no momento em que este caia em cima do colo de duas primas do falecido de ocasião, sendo que no estabanado movimento de desvencilhar-se das senhoras, a uma levantou-lhe largamente as saias. Chiquinho era o mais frequentemente bêbado entre todos os freqüentadores do boteco, e recebeu, por ironia, a última coroa de flores dos amigos do bar, alguns meses depois. Após o sucedido, a homengem florística era aceita ainda, mas nunca bem recebida.
Seu Divino ouviu de alguns dos familiares da vizinhança que era melhor acabassem com aquela carpideira poupança, pois todos por ali andavam a torcer o nariz para a idéia de receber a coroa dos bêbados do bar. Houve até uma senhora que especulou não seria a palavra “contente” do excerto uma galhofa que remetesse a uma possível embriaguez de Deus no recebimento do defunto da dita confraria. Foi quando João morreu, o sétimo ou oitavo tomando por início o Alves. Por um daqueles instantes de afinidade mental quase inacreditável reuniram-se ao mesmo tempo os fregueses à frente das portas fechadas do bar Divino´s. Deu-se assembléia em que ficou decidido que não mandariam, afinal, a coroa de flores, e que o dinheiro seria juntado ao montante das apostas do truco do dia seguinte. Seu Divino concordou, mas obstou que era necessário que então se fizesse, de alguma maneira, uma homenagem ao falecido que não receberia as flores: comprariam um troféu (simples), que receberia o nome do morto. Tomado o gosto pelas deliberações, propôs-se ao seu Divino que abrisse o bar no dia do velório dos próximos chamados por Jesus, comprometendo-se aqueles desclassificados no torneio oficial em homenagem ao falecido a comparecerem o mais depressa possível no velório, a representar o bar.
O Divino´s bar agora não fecha mais as portas quando algum freguês vai dessa para a melhor. Como em Mangueira, que chora os poetas quando morrem, o bar da Marechal Deodoro da Fonseca com a Cientista Frederico de Marco não deixa seus irmãos sozinhos na hora do último adeus. A pinga tem o desconto da diferença da idade, o total da aposta do truco é bom dinheiro mesmo descontado o troféu que carrega o nome do defunto, as portas só se fecham quando o trio vencedor vai embora. Se calhar de alguém arranjar um violão, acredita-se que um sambinha até vá nascer a quando dos futuros passamentos.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Eu vou morrer
Mas hoje soube que vou morrer. E descobri isso da maneira mais simples: já tenho onde ser enterrado. Cuidando das coisas de vovó, verifiquei ser beneficiário de plano funerário que cobre traslado, velório e jazigo, tudo quitadinho à espera silenciosa de eu bater as botas. Não é mordomia ou mau agouro para com a minha exclusiva pessoa: Vó Isabel cuida com desvelo dos tramites do passamento de todos os netos, além, é claro, dos três filhos que ainda estão bem vivinhos da Silva, Machado Silva. Eu não sei bem o que pense: ela que cuidou como lhe foi possível e bem (e tem cuidado) enquanto estamos todos vivos, resolveu estender os carinhos até, ao menos, o túmulo (é preciso, por dever de consciência, dizer que se dependesse dela, religiosa como poucas, também cuidaria do além-túmulo, intercendendo por nós junto a Ele, que segundo ela a tem em alta conta. Não respondo pelos demais dependentes do plano funerário, mas de minha parte pretendo entrar sem referências ou deferências na sala de deus, devendo, a meter-lhe pelas fuças o dedo em riste cobrando um pouquinho mais do meu demenso).
Sabe, eu não pretendia morrer. Tinha decidido firmemente transpor os séculos, impassível, soberbo e observando os tolos mortais deitarem papéis de sorvetes de limão pelo passeio. Mas diante da descoberta de que tenho já lugar cativo debaixo da terra, e melhor ainda, com serviço completo das fainas envolvidas, vou citar Manuel Carneiro de Sousa Bandeira: sei que é grande maçada morrer, mas morrerei. E lembrando também o meu parente Machado de Assis (Lívia, ele se chama Joaquim Maria), agradeço à Vó Isabel esse conforto plácido de saber-me onde descansar a carcaça nada hamletiana: que a terra me seja leve, já que está quitada.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
A morte do pica-pau
Mesmo agora quando saí para a corridinha do fim de tarde foram três! Note bem, estou falando de três pica-paus! Em área urbana, ainda que bastante arborizada. Supondo que dois formavam o casal, quem era o terceiro? O filho? Muito crescido para ainda ter com os pais. O amante? Bom, não sou ornitólogo e desconheço os costumes sexuais dessas aves.
Fiquei percebendo que a primeira idéia, meio platônica por assim dizer, que me surge à mente quando penso em pica-pau é o da Universal Estúdios, criado pelo Walter Lantz na década de quarenta. Bem, nada mais diferente do que o nosso pica-pau tupiniquim, que muitas vezes tem um ventre amarelo de plumagens que vão até ao pescoço, envolvendo-lhe pelo dorso que tromba, por fim, no indefectível topete vermelho, este sim, inconfundível. O pica-pau do desenho animado todo mundo sabe como é, e pica-pau azul claro todo mundo também sabe que não existe (para não falar do bico ama
Este texto queda-se aqui. Isto não é Kafka e nem pretende, mas vou arriscar, como se estivesse frente a frente com quem me lê, em conversa grave. Não vejo mais sentido agora em falar de pica-paus. Acabo de saber da morte de duas irmãs gêmeas, em acidente na estrada que liga Bueno de Andrade à minha Araraquara. Vinte e um anos. Parece-me perderam o controle do veículo. Eu não sei exatamente o que pensar sobre isso, mas me chocou. Chocaria a qualquer um? Morreram oito pessoas no acidente com o Learjet em São Paulo, são mortes menos chocantes? Há como valorar isso? Eu não conhecia as meninas que morreram, mas será que a proximidade geográfica, o fato de eu mesmo passar com alguma freqüência pela estrada em questão são ingredientes para me comover mais? Repito, eu não sei.
O que sei é que Sêneca tem razão, que Hamlet tem razão e que Larkin tem razão. Manuel Bandeira tem razão, pois a vida é uma agitação feroz e sem finalidade. Muitos outros ainda têm razão. Quem não tem razão sou eu: minha única sorte é não acreditar em deus e não ter que me revoltar com ele, não acreditar em destino e não ter que com ele me preocupar. A estupidez da vida é algo tão latente que não consigo sequer pensar em filosofias. Seria culpa de ter uma percepção demasiado acentuada do caráter transitório da vida? Seria problema com neurotransmissores? Seria fingimento de quem não tem opinião, e tem medo? Eu não sei. Sei apenas que a morte, surda, caminha ao lado. Afinal, como notaram as minhas flores de plástico: "(...) a percepção arrastada ao longo dos séculos de que afinal, à morte, ninguém pode fazer esperar eternamente, corroborando com isso o príncipe hamlet, que muito anteriormente havia dito que se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos, que nos importa deixa-lo antes?
p.s. – escusado dizer que o título do texto não seria este, e que o texto, mesmo, também não seria. Mas absolutamente perdi o fio da meada e não consegui retomar o argumento das aves de topete vermelho. Deu no que deu, só posso pedir desculpas, ainda que melhor seria não tê-lo publicado.