(em virtude da inesperada repercussão desse texto, fui obrigado a colocar este breve prólogo para explicar que em literatura - não que eu ache que faço literatura - autor e personagem, autor e narrador em primeira ou terceira pessoa não se confundem. O que vai abaixo é uma ficção, uma história, uma invencionice. Sugiro a todos, depois da leitura - ou mesmo antes - que entrem no link acima onde explico mais pormenorizadamente o que é a síndrome de Zuckerman que leva o leitor a confundir no texto personagens e narrador com o autor. Vou deixar o link aqui também: http://julianomachadobazofia.blogspot.com/2007/12/sndrome-de-zuckerman-um-mal-que-ataca.html
Voltei a pé. Havia apenas uma poalha que, ao contrário de incomodar, me ensinava a colocar as mãos para dentro dos bolsos da calça e encolher o corpo, como se sentisse frio, mas não sentia, não ali. O frio, o vento e a chuva estão sempre cá dentro em algum lugar que eu não consigo identificar (mas porque tenho córtex pré-frontal, não sou tão ingênuo, e o romantismo soaria tolo neste momento, então sei que é na cabeça). O enterro foi sereno, triste como todo enterro, banal como todo enterro. Uma pessoa querida, pai de um bom amigo, a família, consternada, chorou muito. A morte não me abate. Mas a vida (não nessas ocasiões, mas em todas as outras) sim. Considerei digno da parte de deus deixar o dia nublado, um vento frio (eu não sinto frio, mas estava um fiozinho aconchegante) e a garoa tão fina que parecia que alguém tentava chorar, mas sequer podia fazê-lo. A morte sempre será um problema dos vivos, os mortos não têm problemas.
Voltei a pé. Havia apenas uma poalha que, ao contrário de incomodar, me ensinava a colocar as mãos para dentro dos bolsos da calça e encolher o corpo, como se sentisse frio, mas não sentia, não ali. O frio, o vento e a chuva estão sempre cá dentro em algum lugar que eu não consigo identificar (mas porque tenho córtex pré-frontal, não sou tão ingênuo, e o romantismo soaria tolo neste momento, então sei que é na cabeça). O enterro foi sereno, triste como todo enterro, banal como todo enterro. Uma pessoa querida, pai de um bom amigo, a família, consternada, chorou muito. A morte não me abate. Mas a vida (não nessas ocasiões, mas em todas as outras) sim. Considerei digno da parte de deus deixar o dia nublado, um vento frio (eu não sinto frio, mas estava um fiozinho aconchegante) e a garoa tão fina que parecia que alguém tentava chorar, mas sequer podia fazê-lo. A morte sempre será um problema dos vivos, os mortos não têm problemas.
A minha perda foi anterior e a evidência da perda há dois atrás. Mas eu sabia que perderia. Neste caos que se tornou a minha vida, tenho a obrigação de saber, de antemão e com consciência resignada de que serei derrotado. A minha metáfora falsamente kafkiana (eu sou uma fraude) é a da corda-bamba. A Marlene gosta da expressão "fio da navalha". Eu acho que cair, como sem dúvida cairei (e já caí muitas vezes, o sofrimento quando é novo, é até divertido, e o itabirano maior me contou, ainda eu menino, que isso o divertia no espírito) é pior do que se cortar. A dor não me assusta, me assusta ter de levantar dolorido e meter-me a tentar me suster aqui no alto, com o baraço a se mexer ininterruptamente (um Prometeu frangote). A absoluta consciência da derrota e da perda não fazem delas menores, nem menos humilhantes, antes demarcam com violência o estado de vazio, a abstenção do olhar.
Pouco percebi do caminho. As inclinações e sujidades do passeio, as pessoas no sentido contrário (estou sempre na contra-mão, ainda que ande pela mão dupla), os cães existindo, o barulho dinâmico da cidade não me tocou. Só sei que eles passaram por mim (ou antes eu passei por eles – a diferença é enorme) porque não é a primeira vez que desço à vila nestas condições e já houve melhores momentos em que me permiti ver, reparar, sentir o que estava em volta. Como o remédio de dormir que já não faz mais efeito, talvez o meu olhar esteja se tornando gris, e o baixo-relevo aqui é imagem para o rés-do-chão (não sento no meio fio porque não me apetece, não que tenha horário ou compromisso a esperar), mas hoje prefiro o silêncio. Cheguei em casa, e fui ler o que havia escrito, o emeio em que contei quem eu sou, de fato, sem piedade e sem dar margem a qualquer confusão, ainda que você goste de mim.
Admitir para si mesmo o fracasso pode ser, em algumas situações, o passo para transpô-lo, para reiniciar, para intentar um novo projeto. Li isso em algum livro de auto-ajuda. Porque é tudo besteira. O caos que a vida é não está interessado em boas intenções e se isso não fosse o bastante, a culpa é minha, toda minha. Tive os meios de não me tornar no que me tornei e perdi as oportunidades uma a uma como quem se serve de um doce pensando que ele nunca vai terminar. A verdade é que minha história é, como lhe contei, uma sucessão de erros e más escolhas, a sempre presente mania de comparecer aos meus próprios desencontros, de modo que fui obrigado a dizer-lhe que não existem desculpas nem perdão, muito menos qualquer esperança para mim.
Eu sei que deveria ter-lhe dito o que escrevi em sua frente, olhando nos seus olhos. Não creio que isso fosse impedi-la de ir embora, como de fato não impediu, mas ao menos eu teria sido honrado o suficiente mostrando o exaspero pelo que eu sou é sincero. E por isso você está freqüentemente em outra cidade (não importam as distâncias – a distância é sempre apenas uma). Eu jamais poderei ir ao seu encontro, a não ser eventualmente e isso, por si só, me humilha como se eu fosse um bicho sujo que rasteja, e lento, só pode andar poucos metros por dia. Não é bem uma metáfora, é uma impossibilidade logística e como toda coisa ridícula da qual tenho medo e vergonha, apenas uma repetição. Dizer, à la Caio Fernando Abreu, que cheguei ao meu limite, que não sinto gozo ou tormento, que os olhos não vêem é de uma covardia que nem eu vou alcançar desta vez.
Eu fico parado em frente ao ecrã do computador. Giro uma página, giro outra, leio um blogue de que gosto, passeio pela rede social. Tomo um livro, leio-lhe vinte páginas, torno ao jornal e vou finalmente varrer o quintal. Aquela poalha da manhã transformou-se numa enorme bátega, com ventos cortantes que desfolharam a árvore das traseiras da casa. Tudo isso enquanto lia aqui, e aqui escrevia este texto que pretendo publicar em meu blogue. Há na tarefa que farei daqui a instantes algo muito peculiar que é transformar a tristeza latente em resignada. Como? Geometria. Acomodarei os montículos de folhas separados em formas geométricas nos grandes quadrados de concreto que estão para além dos assimétricos e não-lineares tijolinhos que formam a cerca que delimita o jardim. Posso tentar, se quiser, antes de meter para o saco de lixo as folhas que "irremediavelmente sobejam no quintal" espalhar num dos quadrantes e procurar, quem sabe? algum padrão fractal estatístico. É faina que ocupa a cabeça não ao ponto de esquecer todo este desencontro em que nos metemos, mas para... eu já expliquei (preciso me lembrar de que já te disse o que tinha de dizer pela internete – ao invés de ao vivo – e que este texto é para os pobres leitores do meu blogue, e não para você. É, eu tenho um blogue, um blogue que você lê. E tenho pouca coisa além disso.
Há uma saída que implique em, além de aceitar que não possuo meios materiais de acompanhá-la, dê conta de que é pouco provável que uma personalidade melancólica de crisalha venha a cantar como um japiim? Posso considerar que tirar a barba, cortar o cabelo, arrumar um emprego de entregador e pedir que diga à sua família que eu vou daqui para adiante crescer como nunca antes se viu mudar o fato de que, a despeito de tudo isso (que não é verdade, nós todos sabemos) ainda continuarei a ser descrente, desinteressado e sem compreensão do sentido geral das coisas? Penso num grande feito: ficar muito rico, escrever um livro, salvar uma criança num prédio em chamas, descobrir um esquema de corrupção na merenda escolar, a resolução de um teorema matemático daqueles que valem milhões (novamente ganhar dinheiro), e tudo isso me soa vazio como, ao voltar da varreção do quintal, ir ler Hamlet ou Fernando Pessoa ou até mesmo Freud. Sabe por quê? Porque a permanência não está em parte alguma (e como sou desprezível mas não mentiroso, cito que esta frase essencial é de Rilke e não minha). É por isso que não peço mais para ficar e espero que você vá, ou melhor, que continue. E peço aos leitores deste blogue que me perdoem o estilo confessional de um texto que não sabe o que é, e que procurem outro blogue para ler, este vai acabar pois já acabou faz muito tempo.