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sexta-feira, 29 de abril de 2011

O avô de uma amiga foi comandante do Rei Husseim da Jordânia

Peço, como sempre, contrito, desculpas aos meus parcos leitores por ter atrasado a data da Bazófia, mais uma vez. Fiquei duas semanas sem escrever, embora tenha escusas: a primeira quinta foi dor: de amor, de tristeza, de ausência, de isquiotibial, de futilidade, tanto faz; a segunda quinta seria preguiça, feriado, dane-se. Hoje, atrasei pois fui viajar a Rio Preto pensando que posso resolver coisas que não posso resolver, ainda que eu queira muito. Sem mais delongas, vamos à Bazófia de quinta, publicada na sexta, meus tão pacientes leitores (quando o parangolé começa com desculpas boa coisa não vem).
São cinco e vinte e três da manhã da sexta-feira. Acordo. Como o velho Hemingway (medíocre escritor, bom jornalista, curiosa personalidade), abro uma garrafa de Buchanas 12 (ele bebia algum bourbon fora das minhas posses). E vou tencionar escrever versos em que direi o contrário. Lá que se me parta a alma ao meio porque preciso publicar um texto na Bazófia, esta caridade que me faço todo dia como um gato que se lambe quando o dono (ou qualquer outro) o toca. Vou para lá. Escrever sem revisão à base de (que ocioso repetir os benzodiazepínicos, os isrs e a interação com o doze anos). Memória musical dos meus versos inúteis. Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse e não ficasse sempre defronte da tabacaria de defronte.
Certa vez me perguntaram, assim como quem não quer a coisa: "o que te faz feliz?" Respondi: " Nada. Não acredito na felicidade. Mas há momentos felizes, sim. Livros, minha cachorra, amor, alguns amigos etc: sou um homem comum, como me explicou Philip Roth". Não creio que o tenha respondido mal. Claro que cerceei a resposta como quem escreve um diário para a posteridade (não era Camus que dizia que a posteridade não existe?), mas o fato é que disse às folhas o que disse. Vamos em frente. A referência geral é ao Rubem Fonseca e o Diário de um Fescenino.
Eu não posso viver sem ar. Mas ninguém pode. Mas também não posso viver sem ler (que pedantismo mais ultrapassado na era da internete), música, Doutor House e correr. Na verdade me sinto muito melhor correndo do que lendo ou escrevendo (isto é plágio de Ana Cássia Rebelo). Manuel Bandeira me disse sempre, desde eu menino: tenho medo de ter medo na hora de morrer. Penso se o príncipe Hamlet pensou nisso e chegou à minha conclusão: não, não pensou. Se não sabemos nada daquilo que aqui deixamos, que importa deixá-lo antes? Seja o que for.
Sou dado a falar sozinho. Converso comigo o tempo todo, em voz alta. Isso, essencialmente, não vacila a minha convivência social já que em regra eu não tenho uma convivência social. E como  para mim a paciência nunca foi uma virtude, só me irrito se o garçon demorar na próxima dose (por sorte escrevo sob os auspícios benevolentes do tal de Buchanas. Então, sem dó, me fustiguem: tu és feliz, ó da patuléia? Não. Estou nu).
País de merda, e eu nem sou sociólogo. Por isso o que me faz falta é Slavoj Zizek e o seu conceito de excesso contemporâneo, que eu consigo, numa firula conceitual, alcoólica, ansiolítica e plagiada relacionar: alguém se lembra que Voltaire (que não se chamava Voltaire) disse que "ninguém encontrou nem jamais vai encontrar"?  Sinto saudade até hoje do Joaquim, do Traste e do meu pai.
O Manoel de Barros - se a diferença para o outro Manuel ficasse apenas entre um "o" e um "u" -  enfim, o não menos poeta Manoel de Barros dizia que o poeta é aquele que tem a habilidade de comparecer aos próprios desencontros. Lá ser poeta em Praga, é o único lugar que tenho verdadeiramente vontade de me encontrar. Paris, me perdoa mas eu já te conheço, e você anda ficando suja (assim me disse a culpada de todo este sofrimento).
Ando cheio de arrependimentos. Aliás, minha vida é uma sucessão de erros, más escolhas, confusões, de modo que pode até haver esperanças, mas certamente não para mim (isto é Kafka). Eu não trabalho em nada e não quero fazer produzir nada, tiro meu sustento de coisas inconfessáveis. Perguntar-se-ão: qual a relação com o assunto do mesmo parágrafo? Responder-lhes-ei. É óbvio, a culpa me puxa para trás.
Pode parecer piada, mas há uns incautos (me ajuda Amílcar Bettega Barbosa, só pode ser piada que a gente exista e que nos vejam) que me perguntam se sou rabugento, se gosto do meu jeito "impar" de ser e eu fico moído pensando que essas pessoas estão infelizes, desempregadas ou muito felizes e empregadas (ou ricas). Todos os trilhos vão dar no matadouro e por mais que de cinema quaisquer de vocês entendam, todos sabem que esta é a única sessão. Evoé Ascher. Nelson Ascher, o leiam, eu imploro rojado aos seus pés meus parcos leitores (já não sei, neste parágrafo se são dois ou apenas um).
Ontem me perguntaram, em primeira pessoa, qual era a minha frase predileta no momento. Como eu manco, achei conveniente não zombar de quem crê que há predileção momentânea em questões existências (claro que há, mas só há uma resposta, o que torna a pergunta um falso silogismo). Dizia, perguntaram-me qual a minha frase do momento e eu não titubeei: "Ninguém encontrou nem jamais vai encontrar, do Voltaire" (já citada acima, que enfadonho). Cinco segundos de silêncio e a réplica: "Mas o que você procura?" A blague foi tão forte que fui obrigado a ser pernóstico (como meu novo e grande amigo Guile ousou me chamar): "é mais tarde do que supões", de uma das poetas mais lindas que eu conheci. Hilda Hist. De qualquer forma, kids, é inútil procurar.
O meu maior problema, incomparavelmente com as dissonâncias familiares, as complicações financeiras, os percausos da saúde, é que acho que fui uma criança enjeitada. Papai não tem culpa. Embora odiasse o fato de eu ser muito bom em futebol (coisa que meu avô materno adorava - eu gostei dele menos do que podia, culpo-me, também) ele (pai) me  incentivou a conhecer muitas coisas (o que, infelizmente, e não por culpa dele (pai) chama-se Pindaíba, km 145 da Rio Preto-Matão).
Eu queria ter as seguintes qualidades: compromisso; justiça; compaixão (embora não saiba como usá-la); gratidão (sei muito a quem devo, mas sou canalha e não pago nem com sorriso, um único sorriso, mamãe); humildade (tenho vontade de rir quando penso em tentar ser humilde); simplicidade (boa questão, é incrível, mas sou simples); tolerância (rá. Eu não gosto de judeus, armênios, palestinos, árabes, brancos, pretos, calvos, estenógrafos, militantes, açougueiros, livreiros, seguradores, pintores de parade (me avô materno foi), quitandeiros (me avô materno foi); ETs; empregados domésticos, funileiros, cientistas, apresentadores de palco, maquinistas, pintores, romancistas, práticos (isso dá uma grana, deveria repensar); dentistas; engenheiros; médicos; agentes de viagem; José Saramago, o primeiro teste foi no Ano da Morte de Ricardo Reis, chovia em Lisboa.
Chove em Lisboa, a noite acabou e nenhum auto passaria sobre o meu corpo. Não acredito que estejam aqui na próxima quinta(?). Sinto por todos ( que vierem, é claro).

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Quanto será preciso dizê-lo?

(em virtude da inesperada repercussão desse texto, fui obrigado a colocar este breve prólogo para explicar que em literatura - não que eu ache que faço literatura - autor e personagem, autor e narrador em primeira ou terceira pessoa não se confundem. O que vai abaixo é uma ficção, uma história, uma invencionice. Sugiro a todos, depois da leitura - ou mesmo antes - que entrem no link acima onde explico mais pormenorizadamente o que é a síndrome de Zuckerman que leva o leitor a confundir no texto personagens e narrador com o autor. Vou deixar o link aqui também:  http://julianomachadobazofia.blogspot.com/2007/12/sndrome-de-zuckerman-um-mal-que-ataca.html









Voltei a pé. Havia apenas uma poalha que, ao contrário de incomodar, me ensinava a colocar as mãos para dentro dos bolsos da calça e encolher o corpo, como se sentisse frio, mas não sentia, não ali. O frio, o vento e a chuva estão sempre cá dentro em algum lugar que eu não consigo identificar (mas porque tenho córtex pré-frontal, não sou tão ingênuo, e o romantismo soaria tolo neste momento, então sei que é na cabeça). O enterro foi sereno, triste como todo enterro, banal como todo enterro. Uma pessoa querida, pai de um bom amigo, a família, consternada, chorou muito. A morte não me abate. Mas a vida (não nessas ocasiões, mas em todas as outras) sim.  Considerei digno da parte de deus deixar o dia nublado, um vento frio (eu não sinto frio, mas estava um fiozinho aconchegante) e a garoa tão fina que parecia que alguém tentava chorar, mas sequer podia fazê-lo. A morte sempre será um problema dos vivos, os mortos não têm problemas.

A minha perda foi anterior e a evidência da perda há dois atrás. Mas eu sabia que perderia. Neste caos que se tornou a minha vida, tenho a obrigação de saber, de antemão e com consciência resignada de que serei derrotado. A minha metáfora falsamente kafkiana (eu sou uma fraude) é a da corda-bamba.  A Marlene gosta da expressão "fio da navalha". Eu acho que cair, como sem dúvida cairei (e já caí muitas vezes, o sofrimento quando é novo, é até divertido, e o itabirano maior me contou, ainda eu menino, que isso o divertia no espírito) é pior do que se cortar. A dor não me assusta, me assusta ter de levantar dolorido e meter-me a tentar me suster aqui no alto, com o baraço a se mexer ininterruptamente (um Prometeu frangote).  A absoluta consciência da derrota e da perda não fazem delas menores, nem menos humilhantes, antes demarcam com violência o estado de vazio, a abstenção do olhar.

Pouco percebi do caminho. As inclinações e sujidades do passeio, as pessoas no sentido contrário (estou sempre na contra-mão, ainda que ande pela mão dupla), os cães existindo, o barulho dinâmico da cidade não me tocou. Só sei que eles passaram por mim (ou antes eu passei por eles – a diferença é enorme) porque não é a primeira vez que desço à vila nestas condições e já houve melhores momentos em que me permiti ver, reparar, sentir o que estava em volta. Como o remédio de dormir que já não faz mais efeito, talvez o meu olhar esteja se tornando gris, e o baixo-relevo aqui é imagem para o rés-do-chão (não sento no meio fio porque não me apetece, não que tenha horário ou compromisso a esperar), mas hoje prefiro o silêncio. Cheguei em casa, e fui ler o que havia escrito, o emeio em que contei quem eu sou, de fato, sem piedade e sem dar margem a qualquer confusão, ainda que você goste de mim.

Admitir para si mesmo o fracasso pode ser, em algumas situações, o passo para transpô-lo, para reiniciar, para intentar um novo projeto. Li isso em algum livro de auto-ajuda. Porque é tudo besteira. O caos que a vida é não está interessado em boas intenções e se isso não fosse o bastante, a culpa é minha, toda minha. Tive os meios de não me tornar no que me tornei e perdi as oportunidades uma a uma como quem se serve de um doce pensando que ele nunca vai terminar. A verdade é que minha história é, como lhe contei, uma sucessão de erros e más escolhas, a sempre presente mania de comparecer aos meus próprios desencontros, de modo que fui obrigado a dizer-lhe que não existem desculpas nem perdão, muito menos qualquer esperança para mim.

Eu sei que deveria ter-lhe dito o que escrevi em sua frente, olhando nos seus olhos. Não creio que isso fosse impedi-la de ir embora, como de fato não impediu, mas ao menos eu teria sido honrado o suficiente mostrando o exaspero pelo que eu sou é sincero. E por isso você está freqüentemente em outra cidade (não importam as distâncias – a distância é sempre apenas uma). Eu jamais poderei ir ao seu encontro, a não ser eventualmente e isso, por si só, me humilha como se eu fosse um bicho sujo que rasteja, e lento, só pode andar poucos metros por dia. Não é bem uma metáfora, é uma impossibilidade logística e como toda coisa ridícula da qual tenho medo e vergonha, apenas uma repetição. Dizer, à la Caio Fernando Abreu, que cheguei ao meu limite, que não sinto gozo ou tormento, que os olhos não vêem é de uma covardia que nem eu vou alcançar desta vez.

Eu fico parado em frente ao ecrã do computador. Giro uma página, giro outra, leio um blogue de que gosto, passeio pela rede social. Tomo um livro, leio-lhe vinte páginas, torno ao jornal e vou finalmente varrer o quintal. Aquela poalha da manhã transformou-se numa enorme bátega, com ventos cortantes que desfolharam a árvore das traseiras da casa. Tudo isso enquanto lia aqui, e aqui escrevia este texto que pretendo publicar em meu blogue. Há na tarefa que farei daqui a instantes algo muito peculiar que é transformar a tristeza latente em resignada. Como? Geometria. Acomodarei os montículos de folhas separados em formas geométricas nos grandes quadrados de concreto que estão para além dos assimétricos e não-lineares tijolinhos que formam a cerca que delimita o jardim.  Posso tentar, se quiser, antes de meter para o saco de lixo as folhas que "irremediavelmente sobejam no quintal" espalhar num dos quadrantes e procurar, quem sabe? algum padrão fractal estatístico. É faina que ocupa a cabeça não ao ponto de esquecer todo este desencontro em que nos metemos, mas para... eu já expliquei (preciso me lembrar de que já te disse o que tinha de dizer pela internete – ao invés de ao vivo – e que este texto é para os pobres leitores do meu blogue, e não para você. É, eu tenho um blogue, um blogue que você lê. E tenho pouca coisa além disso.

Há uma saída que implique em, além de aceitar que não possuo meios materiais de acompanhá-la, dê conta de que é pouco provável que uma personalidade melancólica de crisalha venha a cantar como um japiim? Posso considerar que tirar a barba, cortar o cabelo, arrumar um emprego de entregador e pedir que diga à sua família que eu vou daqui para adiante crescer como nunca antes se viu mudar o fato de que, a despeito de tudo isso (que não é verdade, nós todos sabemos) ainda continuarei a ser descrente, desinteressado e sem compreensão do sentido geral das coisas? Penso num grande feito: ficar muito rico, escrever um livro, salvar uma criança num prédio em chamas, descobrir um esquema de corrupção na merenda escolar, a resolução de um teorema matemático daqueles que valem milhões (novamente ganhar dinheiro), e tudo isso me soa vazio como, ao voltar da varreção do quintal, ir ler Hamlet ou Fernando Pessoa ou até mesmo Freud. Sabe por quê? Porque a permanência não está em parte alguma (e como sou desprezível mas não mentiroso, cito que esta frase essencial é de Rilke e não minha). É por isso que não peço mais para ficar e espero que você vá, ou melhor, que continue. E peço aos leitores deste blogue que me perdoem o estilo confessional de um texto que não sabe o que é, e que procurem outro blogue para ler, este vai acabar pois já acabou faz muito tempo.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Notas

São nove horas da manhã. Estou sentado numa mesinha no lado esquerdo da praça delle Erbe de frente para um delicioso mercado de hortifruti a céu aberto. Enquanto digito, bebo apenas água mineral sem gás e mordisco um pedaço de broa muito seca, e por isso mesmo saborosa. Tomei o café da manhã muito cedo no hotel e sai para caminhar carregando a maleta do lap-top. Verona é uma cidade para se caminhar (diferente de como se caminha em Paris, em Roma, em Londres ou Madrid). Não obstante seja a segunda maior cidade do Vêneto, depois de Veneza, paira sobre ela uma aura mais sutil que cidades de mesmo porte (quem quiser procurar ruínas terá a segunda maior, também, neste quesito, na Itália inteira, perdendo só para a capital). Vim para cá fugindo de de uma desilusão e sequer poderia imaginar o que encontraria dois dias depois da minha chegada, no último domingo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Enciclopédia Municipal do Esquecimento - parte final

Interlúdio e fuga
Ainda esperava ele voltar do banheiro quando começou a chover. Num instante, uma bátega forte caía molhando tudo de estranho e taciturno do dia complicado. Tentava construir possibilidades acerca do diálogo que ele tivera com a namorada, mas não podia fazer idéia. Enganei-me, em princípio, quando cheguei a acreditar que eles estivessem bem, que ele teria o consolo que desejava, se é que desejava, nos braços dela. Ineludível foram suas palavras, “mais uma despedida”, e despedida, neste caso, não parecia coisa boa. Além disso, sua face havia envelhecido muito, se contraído. É verdade que durante todo tempo, quando reparava em suas expressões, achava-o tácito, certo de seus pensamentos e atitudes, mas, ao lado desta impressão, havia um desconcerto de alguém que já não sabia qual era o seu lugar e talvez não alcançasse se havia de fato um. Era certo que não estava desesperado, ou o desespero era de tal forma contido ou embotara tanto a capacidade de reagir, que ele se conservava calmo. Mas agora, depois de ter se despedido da namorada, ele fora amolgado. Eu já não sabia em que pé estaria a história do nome, já não podia perceber onde isto teria ainda importância e já, em verdade, deixara de pensar a respeito, e tanto que, ao ouvir o que ele agora ia me dizendo, não me surpreendia por sua opção:
— Não falei a ela sobre a confusão dos nomes.
— Por quê?
— Não achei que valesse a pena, a decisão dela estava tomada. Falar poderia surtir dois efeitos opostos, e nenhum deles desejáveis.
— Quais?
— Ela poderia se entristecer e dar mais razão às suas considerações, me fazer ficar ainda pior em relação a ela, confirmar-lhe minha sandice.
— E a outra?
— Ela poderia se apiedar do meu estado, que no mais não é para tanto, e aí, claro, seria muito pior, pois poderia pensar em voltar atrás por pena ou qualquer sentimento semelhante...
— O que ela disse? Antes de me responder, ele passou demoradamente as mãos sobre a face, lívido, parecia querer conter, não propriamente um choro, mas uma angústia que teria de sair dali por algum meio. Suspirou profundamente, chegou-se bem perto de mim para poder falar baixo:
— O mais importante é que disse não me amar mais...
— Assim, simplesmente?
— Não, disse outras coisas, provavelmente o que ela cria serem os motivos que a fizeram deixar de me amar.
— E você acredita que ela não o ame mais?
— Se a mulher da sua vida diz que não o ama mais, tem-se a obrigação de acreditar nela.
— Mas talvez não de aceitar...
— Talvez não, mas me parece demasiado tarde.
— E foi apenas assim que aconteceu?
— Não, ela disse outra coisa, e é possível que isso conte mais a respeito do caso.
— O que foi?
— Numa frase, falou que eu posso compreender e fazer coisas tão complicadas e não posso resolver e entender as mais simples, mas que estas justamente teriam feito ela ficar ao meu lado.
— E você concorda com isso?
— Não estou certo, mas tendo a acreditar... em realmente tenho dificuldade em me relacionar com o cotidiano, com as coisas naturais da vida...
— E o seu nome, lembrou-se?
— Não lembrei, até mesmo gostaria agora de acreditar que eu fosse o Julio Andochama.
— Seja!
— Não, isso não, ele e eu parece andamos a perder algumas coisas importantes, e não falo apenas por hoje, porque este carrossel vem girando há algum tempo... Ele se virou para fora e somente neste momento percebeu que chovia, sua expressão mudou novamente, me disse, tocando novamente meu ombro:
— Está chovendo!
— É, está, agora é que não poderemos sair, meu carro está longe.
— O meu também, mas não precisamos de carro, agora é que poderemos sair!
Seu olhar iluminou-se, não o suficiente para apagar a tristeza dura que se intensificara desde a conversa com a namorada, mas brilhou como se a chuva, ou os prismas que cada gotícula são, pudessem fracionar aquela confusão sólida permitindo descobrir, nas parcelas surgidas, alguma possibilidade. Pegou-me no braço com delicadeza, mas resoluto e disse:
— Vamos, vamos!
— Não vamos sair na chuva.
— Tem razão, é loucura para nós, eu vou só.
A forma como pronunciou as palavras me pareceu muito pueril, o que concorreu para que eu me irritasse um pouco, porque era um convencimento muito rasteiro me fazer acompanha-lo sabendo que temia deixa-lo só, naquele estado, estado, aliás, que nem eu mais sabia ao certo qual era. Não era o caso. Não condizia com a pessoa que ele costumava ser algum jogo deste nível, uma persuasão que antes poderia ser uma coação, independente de quem ele era, independente do nome que tivesse, o homem que estava parado diante de mim, convidando-me a ir para debaixo de uma tempestade num julho muito frio, não queria nada além de companhia, e agora, pelo alheamento repentino, nem disso necessitava mais. Soltou meu braço, oscilou a cabeça, olhou por alguns instantes para fora, esfregou o rosto com as palmas da mão, num esforço procurou sorrir, achegou-se perto e me deu um abraço demorado, mas mudo. Eu o abracei e preferi não dizer nada também, esperando que ele falasse. Ao cabo de uns quantos segundos ele me disse, sem me soltar:
— Obrigado.
— Não há o que agradecer, somos amigos.
— Passei este dia inteiro a confundi-lo nas minhas confusões, e mesmo você não sabendo mais quem eu sou, que louco que sou, esteve aí ao meu lado, obrigado...
— Não há necessidade de agradecimento, estaria do seu lado para o que precisasse.
— Eu sei, eu sei, mas agora eu vou caminhar um pouco.
— Está chovendo demais, vá para casa, tome um banho, durma um pouco, vai ver que tudo se aquieta.
— Eu vou caminhar, e tudo se aquieta também.
— Caminhar nesta chuva? Façamos o seguinte, eu levo você pra casa, depois tomo um táxi e venho buscar meu carro.
— Claro que não, eu vou só caminhar um pouco...
— Julio, José, ou o raio que seja seu nome, por favor, me escute uma vez ao menos nesta merda de dia confuso que tivemos, vá para casa, tome um banho, durma e amanhã volte a pensar em tudo novamente!
— Você foi um grande amigo, um companheiro excelente, gostaria de poder retribuir fazendo algo para agrada-lo, mas, não vou voltar pra casa agora, eu preciso caminhar.
— Na chuva?
— Na chuva.
Eu estava extenuado, não tinha mais forças para discutir, além disso, apesar de todas as palavras dele em meu proveito, me irritei bastante com o que considerava ser uma ingratidão não ouvir meus conselhos de ir embor. Demorei um instante com a cabeça baixa, esfreguei com os dedos os olhos e falei olhando para ele, com bastante calma, mas a voz carregada, para que ele percebesse a extensão do meu cansaço:
— Você tem trinta anos, não o posso impedir de fazer o que quiser fazer, mas é uma atitude infantil sair à noite no meio da chuva. Achei que este artifício pretensamente humilhante de chamá-lo infantil o pudesse dissuadir da caminhada noturna, mas ele deu de ombros e sorriu com carinho:
— Eu sei, meu amigo, eu sei... E tocou, condescendente, meu ombro esquerdo mais uma vez.
Apesar de ter sido sincero ao dizer que não o impediria de sair para a chuva, não pude deixar de ir atrás dele. Não tinha uma noção exata de qual era o meu medo naquele momento, e nem sei se o que me fez pegar o carro e segui-lo de perto tivesse que ver propriamente com receio, mas estava, entre outras coisas, curioso a ver no que ia dar tudo aquilo. Despedimo-nos mais uma vez, com um aperto de mão à saída do bar e ele saiu caminhando lentamente pela calçada, ainda se protegia da chuva por causa de alguns toldos dos estabelecimentos contíguos. Eu fui na direção oposta buscar meu carro, que afinal não estava tão longe quanto eu houvera dito, simplesmente com a intenção de retê-lo no bar. Deixei ele se afastar um pouco, não queria que me visse, embora sabendo não haver nenhum sério problema se acontecesse. Fui guiando lentamente, há cerca de uns trinta ou quarenta metros, a iluminação pública não era ruim, mas a mistura dela com a água e os vários letreiros dos comércios deixavam a atmosfera densa, esfumaçada, as cores se matizavam, se confundiam, e a água fazia as formas se movimentarem. A rua, a despeito de ser uma alameda paralela à marginal era movimentada, mas por ser também larga, permitia que eu pudesse conduzir o carro do lado direito, devagar, ouvindo de quando em quando umas buzinas. Ele caminhava agora mais célere, olhava para o seu lado esquerdo, de vez em quando olhava para o céu, mas imagino que os pingos o agrediam, pois durava pouco este menear de cabeça, conquanto fosse repetido sempre. À distância em que eu me encontrava não podia ver seu rosto, até porque estava atrás dele, mas tão pouco podia perceber algum movimento distinto que aludisse a alguma intenção, fosse ela qual fosse. Era uma pessoa caminhando rápido pela chuva, mas, nitidamente, sem a pressa de chegar num ponto em que evitasse se molhar. Numa esquina, parou. Como não houvesse nenhum carro, entendi que ele tinha me visto, e simultaneamente ao meu entendimento, virou-se e acenou com o braço. Levei o carro até junto dele, abaixei o vidro, já que ele tencionava me dizer alguma coisa. A chuva estava amainando, mas ainda era forte, ele tirou o excesso de água do rosto com a manga da camisa, mas ela estava tão encharcada que a ação resultou inútil, e me disse:
— Meu bom amigo, até quando pretende me seguir?
— Não sei, não sei mesmo. Se você tivesse algum juízo, ou alguma consideração por mim, entraria neste carro e me impediria de andar por aí a dez por hora com essa chuva!
— Eu não vou entrar, quero mesmo caminhar, não se importune comigo, já fez tudo que podia fazer, parece estar cansado, vá para casa.
— Estou cansado, estamos cansados, vamos para casa tomar um banho e dormir, tente esquecer tudo isso um pouco.
Ele fez o mesmo movimento para tirar o excesso de água da face, franziu a testa e esticou os lábios. Apesar de estar a meio metro de mim, por conta agora da iluminação prejudicada por uma árvore e a água que era muita, não pude perceber se ele havia sorrido ironicamente ou se apenas tinha contorcido a expressão numa atitude normal de quem tem a cara molhada, então insisti com pesar:
— Esquece tudo isso, vamos para casa! Mas ele respondeu-me com gravidade:
— Quero esquecer tudo, a dor de ser homem, este anseio infinito e vão de possuir o que me possuí...adeus.
A frase era bonita, de efeito, algum tempo depois descobri ser de um poeta famoso, mas o que me chamou mais atenção não foi seu sentido, sua poesia, mas sim o término, um adeus convicto que precedeu uma atitude adolescente mas imperativa, que foi apressar o passo, quase a correr e seguir pela esquina em direção à marginal. Não soube o que fazer então. Segui-lo de carro, pela marginal seria impossível, não poderia continuar andando na velocidade em que estava. Correr atrás dele a pé era um despautério para o qual não estava inclinado. Deixa-lo ir, simplesmente, eu também não podia, depois de tudo quanto havíamos passado. Ora, diante de três possibilidades e não dispondo de tempo para pensar em outras, fiz o que menos queria fazer. Dei ré com o automóvel e o estacionei há alguns metros da esquina, praguejando, desci do carro e corri em direção a ele. A chuva estava muito fria, os pingos eram grossos, a impressão que eu tinha de que ela estava amainando se desfez assim que senti seu primeiro contato. Passei pelo quarteirão que ligava a alameda à marginal, o trânsito era pesado, e não conseguia encontra-lo. Novamente uma dualidade de sentimentos em mim, “se não o encontro, tanto melhor, vou embora pra casa tomar um banho quente, mas, se não o encontro, o que poderá acontecer”, pensei isso e segui adiante, caminhando do lado direito, olhando para todos os lados à procura dele. Finalmente o vi, estava encostado numa placa de trânsito, a cabeça sob o antebraço, corri até ele, era difícil falar no meio da tempestade:
— Por favor, isso já foi longe demais, vamos embora!
— Sabe como eu me sinto? Como se eu fosse feito de plástico e os meus movimentos estivessem endurecendo...
— Está muito frio, você está estressado.
— É como se eu estivesse me desfazendo, esboroando, se como o que ainda resta de mim, estivesse se partindo...
— Você está deprimido, teve um dia difícil, vamos para casa!
Eu disse isso e o puxei pelo braço, queria demonstrar compreensão, mas ao mesmo tempo pretendia ser enérgico fazendo-o perceber que a situação havia chegado ao limite, mas ele não me ouvia, estava aplacado, e não me olhou em nenhum momento, antes, parecia que era um palrar que ninguém atinava, ainda assim eu insisti:
-- Vamos embora? Ele me respondeu com angústia:
— Eu me sinto falso, não posso mais, não sei mais quem sou...
— Amanhã, meu amigo, amanhã as coisas vão melhorar, vamos embora. Não adiantava, ele se desvencilhou de mim e caminhou a passos acelerados, embora estivesse muito oprimido, falava sem atropelo, com amargura e tristeza. Eu corri e o segurei pelos braços novamente, decidira agora o levar à força, e disse:
— Vamos embora, já chega.
— Já chega... não é verdade que ela fique mais linda triste, sorrindo, ela é incrível...
Não pude responder, porque ele se soltou com violência de mim e correu para a marginal, atravessando-a de uma vez. Do outro lado, ladeando o parapeito foi caminhando e olhando para o rio. Eu gritava para que voltasse, e não conseguia como ele, com a mesma destreza, atravessar a avenida muito movimentada. Ele voltou-se para mim, acenou com o braço e saltou a proteção de metal. Gritei alguma coisa que não me lembro e corri para o meio da rua sem atinar no que fazia, atravessando-a como ele o fizera um pouco antes. Cheguei do outro lado e já não podia mais vê-lo, o rio estava revolto, muito escuro como sempre, imundo das sujidades da urbe. Saquei o celular do bolso, completamente molhado, para pedir socorro, gritei para o alto uma raiva e continuei a acompanhar o caminho do rio, uma enxurrada parda e inexorável. Sentei-me no chão, esfreguei o rosto com as mãos, olhei para o relógio, faltavam alguns minutos para a meia-noite quando a chuva passou a cair ainda mais forte.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Enciclopédia Municipal do Esquecimento - segunda parte

Comparecendo ao próprio desencontro.
Eu estava a caminho do bar, um boteco em que costumávamos fazer nossas paradas depois do trabalho, lugar simples mas aconchegante para botar pomada nas feridas e vergalhões do ter de ganhar a vida. No caminho tentei me concentrar numa nova estratégia, alguma maneira de faze-lo perceber o tamanho da sua loucura. Não sei exatamente se por estar inseguro quanto à eficácia de uma nova estratagema, ou inseguro se eu mesmo acreditava no que iria empreender, o que ocorreu foi não pensar mais no que dizer quando chegasse, apenas tentava me lembrar das cores da roupa dele, e não conseguia. Sabia que estaria trajando calça social, uma camisa de manga comprida, porquanto era assim que eu estava vestido e que todos os que ocupavam os nossos postos na empresa se vestiam, mas não podia precisar se a calça era bege, preta, marrom, ou creme, nem de que cor seria a camisa. Na altura não achei um fato importante, mas tão pouco posso atinar o porquê ele me consumiu durante todo o caminho, quinze minutos de carro, até chegar ao bar.
Ele estava apoiado no balcão, de costas para a saída e não podia me ver. Foi um alívio. Preferia mesmo cumprimentar outras pessoas, andar um pouco pelo recinto, dobrar as mangas da camisa, enfim, embriagar-me dos vapores do boteco antes de encarar a conversa que não seria fácil. Se bem que entre um olá e outro, entre uma brincadeira e outra, pensei que tudo poderia ter se desfeito, e a minha esperança aumentou quando vi uma garrafa de cerveja aberta em sua frente, no balcão de compensado:
— Está ao menos com uma cara melhor, já posso lhe chamar de Julio? E toquei-lhe, novamente, com ternura o ombro.
— Eu prefiro que não. Disse em sua sala que por enquanto é José, ou Zé, mas, você tem sido tão paciente e amigo, se quiser me chamar de Julio, tudo bem, não me oponho.
Embora a sua resposta devesse me causar estranhamento, o que me chamou atenção foi o fato de reparar que ele estava com uma camisa amarela, clara o suficiente para que eu me lembrasse dela, visto ainda que a calça era do mesmo tom pastel, em desacordo com o comum dos seus vestuários, sempre mais escuro, tanto mais pois estávamos no inverno. Não sei se influenciado pela questão das cores do vestuário, se impressionado com isto e tudo o mais de balbúrdia que estava acontecendo desde a manhã, o caso é que naquele instante olhei para ele e não o vi, não vi como sempre o houvera visto: então pela primeira vez o chamei de José, e não soou estranho como antes no escritório, onde não poderia me desapegar de uma verdade que então me parecia óbvia e era o nome dele ser Julio:
-- José... Bom, acho melhor Zé... Zé, me diz, como é que está, a quantas vamos?
— Não sei lhe dizer, o fato de não lembrar meu nome deixou de me incomodar, sei que não me chamo o que vinham me chamando, por isso até disse que poderia me chamar como quisesse, não me chamo Julio, tão pouco me chamo José, vem a dar no mesmo esta questão dos nomes agora.
— Mas, o que pretende fazer?
— A primeira coisa será pedir demissão, não faz sentido mais trabalhar lá, pode ser que eu venha, amanhã, a esquecer o que faço no serviço, minhas atribuições... e se vier a descobrir que também isso está errado, será melhor que já não sofra a angústia de estar na empresa.
Eu ouvia aquelas palavras atônito, tudo quanto ele dizia me parecia confuso porque nunca podia saber se me espantava com o absurdo da situação e de suas afirmações ou com o absurdo que era eu não ter convicção de que ele estava falando absurdos, se as coisas fossem como fossem, era plausível o que ele contava. Me conservei ao seu lado, quieto por um instante, e pedi um copo ao moço do balcão.
— Estou tomando esta aqui... Ele levantou a garrafa de dentro da camisinha e eu vi o rótulo, era uma cerveja que eu apreciava muito, o que me fez tomar ânimo para falar. Tentei colocar uma voz de confiança e firmeza, como já o tentara antes, para mostrar o quão importante era o assunto e minha opinião sobre ele:
— Olha, cara, você não pode largar o emprego, as coisas não são tão simples assim!
— Não penso que sejam simples, mas tem de ser assim.
— Não, não têm, não assim, pode até ser que vá desistir de trabalhar na empresa, mas espere um pouco, serene o espírito antes de tomar uma atitude precipitada!
— Por incrível que pareça, eu estou sereno, posso até adiar o comunicado porque tenho dois dias, o diretor me concedeu, mas sei que não volto a colocar os pés naquele prédio...
— Veja bem, se tudo o que você disse for da forma como disse, e se realmente amanhã você se esquecesse da sua ocupação, essa consciência antecipada não poderia garantir que de fato seu emprego existe hoje e existiu anteriormente?
— Não alcanço onde quer chegar.
— Perceba, se o que imagina que possa acontecer em relação ao seu emprego de fato aconteça, podemos supor, por analogia, que isto aconteceu também com o seu nome, e com o esquecimento dele.
— Faz sentido...
— Claro que faz! A partir disso, então, não seria interessante considerar que seu nome realmente pode ser Julio Andochama, e o que está havendo de fato é um esquecimento inexplicável, ou explicável, uma estafa, estresse?
— Seu pensamento é interessante, mas contém uma lacuna lógica, e não me parece possa funcionar na prática.
— Como não?
— Eu não me chamo Julio Andochama, e tenho certeza disso, a partir dessa certeza, que vem antes de outras possibilidades que ainda não foram verificadas, como por exemplo esquecer-me, amanhã, das minhas funções, posso apenas afirmar que não me chamo Julio, o que pode vincular os fatos vindouros a este acontecimento precípuo, mas por sua gênese, e por não se ter anunciado anteriormente sequer uma idéia de que isso pudesse acontecer, não podem os fatos que possam vir em decorrência deste vincularem o significado de quem lhes deu origem...
— Meu Deus, estou ficando confuso...
— Certo, resumindo, pode ser que o fato de eu não me chamar Julio, e este erro que eu não sei porque se deu esteja a embotar as vistas de todos, não a minha, pode ser que este fato, que em última análise seria o erro, e não o fato propriamente dito, porque, repito, não me chamo Julio Andochama, enfim, este erro pode vincular os demais acontecimentos, relativos inclusive ao conhecimento do meu emprego, mas o reconhecimento de mais um erro, ou um esquecimento com relação ao conhecimento que agora tenho do erro ou do emprego, e aqui as duas coisas se equivalem, não pode vincular o fato primordial, que é: há erro quando dizem que me chamo Julio Andochama, e veja, não cogito a possibilidade de que um dia eu tenha tido este nome.
Nesta altura eu já havia puxado uma banqueta dessas mais altas, próprias para os balcões, e estava sentado desde a metade de sua argumentação, e a despeito disso, parecia que minhas forças acabavam enquanto ele falava, tamanha a contundência com que dizia. Novamente eu não podia perceber se o que minava minha capacidade argumentativa era o imenso complexo de causas e efeitos que ele tinha construído, ou a extrema convicção com que o construíra. Calei-me e entornei um copo de cerveja gelada, a garrafa chegara ao fim. Pedi mais uma. A cerveja chegou, permaneci calado, ele encheu nossos copos e disse que iria ao banheiro, o que me fez sentir aliviado, por uns instantes teria o pensamento livre, a cerveja gelada, alguns segundos para pôr alguma coisa no lugar. De súbito, o que veio ao meu pensamento foi “qual é o meu nome?”, mas não havia esquecimento aqui e eu o pronunciei mentalmente, devagar, regozijando-me no que agora acreditava ser uma enorme benção.
Quando ele voltou notei que guardava o aparelho celular e tinha a expressão bastante absorta. Hesitei não sabendo se deveria perguntar, pois mesmo numa situação como aquela, poderia ser indelicado indagar de algo tão particular como uma ligação, mas conjeturando que o atual estado de coisas não permitia vacilação, eu disse:
— Está tudo bem? Parece que a conversa não foi boa...
— Não, não foi boa, era minha namorada...
— O que ela disse?... Se é que não estou me metendo demais...
— Tudo bem. Repito, você tem sido tão companheiro e paciente, posso estar confuso mas sei agradecê-lo por isto.
A resposta dele me fez crer que eu estava de fato sendo intrometido, mas que tinha aí alguma coisa como um salvo-conduto, e pensei comigo “mas o que é que eu fiz até agora?”. Mesmo assim não fiz caso:
— E então o que ela disse?
— Não estamos bem, faz um tempo já, ela falou que passaria por aqui daqui vinte minutos, acho que é tempo o suficiente pra decidir a questão do emprego...
— Zé, você não me disse que esperaria ao menos os dois dias concedidos pelo diretor?
— Disse, mas não vejo sentido, uma vez que a decisão está tomada e cada vez mais se calcifica.
Não sabia mais o que dizer, não tinha mais meios ou subterfúgios para segurar aquela loucura. Enquanto isso, ele parecia realmente calmo, embora entristecido. Levantou-se da banqueta e foi cumprimentar um conhecido que estava numa mesa um pouco afastada, fez um gracejo, deu duas ou três risadas, olhou para os outros convivas, acenou com a cabeça, e voltou para junto de mim:
-- Ele é vendedor da empresa de telefonia que fornece pra gente, conhece-o?
— Não conheço.
— Também não trato com ele, mas ele tem mania de me chamar iconoclasta, por conta de uma conversa que uma vez tivemos.
— Ele não sabe o seu nome?
— Creio que saiba, mas só me chama iconoclasta.
— E imagino que agora isto o tenha agradado bastante.
— Sim, foi um teste, fui ver se iria me chamar iconoclasta, chamou, eu gostei.
— É um alívio?
— Não propriamente, mas ao menos sinto-me um pouco mais eu, seja eu lá quem for.
Pedimos outra cerveja, era a terceira desde que eu estava ali, quem desta vez veio traze-la foi o dono do boteco, este sim José, o Zé. Veio com um sorriso largo, éramos clientes habituais, amigos desde as épocas em que a freguesia era pequena, dos muitos retratos de freqüentadores hoje, o primeiro pregado na parede havia sido o nosso.
— Olha só senhores, como vão as coisas?
— Tudo certo Zé? Eu respondi e estiquei-lhe a mão, cumprimentamo-nos, ele ergueu meu copo e passou um paninho úmido sobre o compensado:
— E este aí? Perguntou sorrindo.
— Está estressado, nada de grave, precisa de uma cerveja e de uns torresmos.
Ele tinha, assim que cumprimentou o Zé, ido para a frente da estufa de salgados escolher alguma coisa, ergueu a cabeça e sorriu para o Zé:
— Oh Zé, me veja aí uns quatro torresmos! — virando-se para mim — Quer quantos? Respondi com os dedos — Então, Zé, seis! Este treco é bom demais.
O dono do boteco apanhou lá os torresmos, depositou-os no balcão e foi pegar os aparatos, palitos, guardanapos e uma pimentinha que sabia gostávamos, tudo pronto, falou em tom festeiro:
— É seu Julio, precisa desistir do seu time heim! Sorriu novamente e nem notou o quanto o seu cliente ficara sério com o comentário, ele não ligava para brincadeiras de futebol, nunca ligou, não seria o caso, e não era.
— Zé, aliás, precisa fechar minha continha, deixei alguma coisa pendurada no meu nome aí... — Deixa eu ver... Julio, ih, que nada, aquela caixa de latinhas que pegou e estava sem a carteira...
— Quanto dá?
— Dezoito.
— Bobagem. Me troca um cheque? Dezoito reais da caixinha, mais dezoito de outra que levo na hora de ir embora, mais trinta da continha de hoje, mais cinqüenta pra ficar com dinheiro no bolso, cento dezesseis, certo?
— Certíssimo! Mas pensa bem a respeito de mudar de time!
— Vou pensar, Zé, vou pensar bem em mudar.
Assinou o cheque rapidamente, ainda tentei ver como assinara, mas não reconheci nada, apenas um garrancho que, se não me enganei, não era sua assinatura. Por certo que o dono do bar não notou o que ali tinha se passado, mas eu havia entendido, aliás, ele me confirmaria logo, quando o Zé nos deixou a sós, no meio da turba do bar:
— Uma conta no nome de Julio, agora estou pagando conta no nome dos outros, e ainda tendo que assinar um documento de outro, com um nome de outro.
— Como acha que chegarão as faturas dos cartões de crédito, por exemplo?
— É, eu imaginava, por isso preciso remendar o erro.
— E se não houver erro?
— Há erro, eu não sou o Julio, e há erro, sobretudo, porque não importa quem viesse pagar a conta no nome do Julio, se eu, se outro, ou o próprio Julio...
— Acha que o Zé não se interessa por quem você é?
— Por quem eu sou? Talvez sim, talvez não. Com quem paga a conta e no nome de quem ela está, sem dúvida que não, contanto que a paguem.
— Assim é com todo mundo...
— Não tenho a menor dúvida de que é, exatamente por isso preciso desfazer o erro, e não necessariamente me lembrar do meu nome.
— De novo não estou lhe entendendo.
— Neste momento, nem eu...
Agora era a minha vez de ir ao banheiro. Procurei me apressar, deixá-lo sozinho talvez não fosse boa idéia. Quando voltei ele estava no celular, calculei que era a namorada novamente, me enganei. Cheguei perto, já sentia que nenhuma intromissão naquelas alturas poderia ser injustificada, e percebi que ele estava falando com alguém da firma, provavelmente o nosso chefe. E era isso mesmo, andou de lá pra cá, próximo a mim, não parecia ter interesse em ocultar nada, mordiscou um pedacinho de torresmo enquanto ouvia o interlocutor, passou a mão pelo balcão, olhou-me algumas vezes, mas em nenhum momento exprimiu irritação ou preocupação. A face era serena, talvez um pouco enfadada com um diálogo que parecia perdurar mais do que ele desejaria. No final da conversa, apenas assentia com grunhidos e movimentava a cabeça, como se quem estava do lado de lá o pudesse ver, ou antes, assim o fazia para mim. Quando finalmente desligou o telefone, aproximou-se, deu-me um tapinha no ombro e falou sorrindo:
— Estou fora.
— Eu não acredito!
— Pois acredite! De qualquer forma, não é tão mal assim, não me sinto aflito, não queria mais o emprego, aquele emprego não me pertencia.
— Isso é loucura!
— É! Eu concordo! Sobretudo porque o diretor, pressuroso em me dispensar, teve de faze-lo pensando que me dispensava, quando, na verdade, pelo que ele disse lá dos arquivos da empresa, dispensava o tal de Julio Andochama.
— É você!
— Não sou eu, eu sou este que está aqui.
— E quem se demitiu da empresa?
— Quem pediu a demissão fui eu, mas ao que parece quem foi demitido é o Julio Andochama. — E quem é esse?
— Não sei, mas não estou nem um pouco interessado em descobrir.
A conversa deu-se no seguinte estado de ânimos: eu desgastado, vendo que se estava a praticar uma imbecilidade e sem poder evita-la, ele, com um sorriso que variava entre o irônico e o pueril. Alisei os cabelos, ele fez o mesmo, apenas um pouco depois, sua calma era tamanha, que não mais uma corda vibrou dentro de mim, mas uma sonata principiou a ser executada. Bebemos por uns vários minutos calados, comemos mais algumas coisinhas, comunicávamos apenas com gestos, ora apontando para uma moça que entrava, ora sorrindo de esbarrão, ora anuindo um ao outro à nova cerveja que deveria ser trazida. Ele não era o Julio Andochama. Não obstante, ou fosse lá quem fosse, ou chamasse como chamasse, parecia estar menos preocupado com sua identidade do que eu tentando descobrir alguma coisa que não sabia o que era. Ainda assim, sua companhia era agradável, cúmplice, e eu mesmo deixei de pensar exaustivamente naquele assunto. Passaram-se aí mais uns quantos minutos quando ele rompeu o silêncio e disse:
— Ela chegou, agora é que vamos ver.
Ela havia chegado. Ficou parada na entrada do bar, com a bolsa presa entre o braço direito e a cintura, parecia angustiada, estava triste. Ela era linda. Eu já a havia visto muitas vezes, saído tantas vezes ela, ele, minha esposa e eu para jantares, teatros, chopes, mesmo ali no bar nos encontrávamos sempre. Não me recordava de tê-la visto alguma vez triste, mas o fato é que a sua tristeza tão evidente a deixava ainda mais linda. Ele se aproximou mansamente e deu-lhe um beijo delicado, depois abraçou-a, ela retribui o beijo e o abraço e fez-lhe um afago no cabelo. Ele estava de costas para mim, a distância era razoável, julguei que agora realmente não faria sentido me aproximar, e é claro, não me aproximei, o máximo foi o aceno de mão que lancei quando ela me viu, assim que terminou de abraça-lo. Esperei por algum tempo. Não sei precisar o quanto durou a conversa, eles se mexiam muito pouco, mas nunca deixaram de estar ao menos com um dos braços a enlaçar o corpo do outro, não havia gestos muito bruscos e se a voz ergueu-se em algum instante, foi tão pouco que não seria possível perceber. Olhavam-se nos olhos, ou ao menos eu tinha essa impressão, já que eu não podia ver a face dele. A cena me hipnotizava pela candura, pela placidez estática, e me absorvi nela, esquecido da cerveja, do petisco e dos rumores do bar. Pensava que estavam se acertando, que ela o compreendesse, e que estivesse afagando-lhe a alma extenuada. Imaginei que ali ele encontraria um apoio realmente importante em que pudesse talvez, não explicar alguma coisa e encontrar respostas, mas quedar-se num ombro acolhedor. O tempo passou, volto a dizer, não sei quanto, não pude mais perceber isso quando ela voltou-se para mim, e por cima do ombro dele acenou-me um adeus com as mãos. Imediatamente tornou a olhá-lo, beijou-o levemente e saiu do bar. No átimo em que me olhou se despedindo, pude ver que ela tinha chorado, os olhos verdes, lindos, estavam baços.
Ele caminhou até mim em passos muito lentos, pousou a mão em meu ombro como duas vezes durante este dia eu já houvera feito e me disse num arfando profundamente:
— Mais uma despedida... — Coçou os olhos e continuou, em voz baixa, devagar — Ela é linda, mas a beleza dela fica mais latente quando está triste... — respirou, e sem mudar o tom ou o volume, arrematou — Acerte aí com o Zé, já paguei trinta, vou ao banheiro, depois vamos embora.
Paguei o restante da conta, entornei o meu último gole de cerveja, e o mesmo borriço que vi nos olhos dele, adivinhei nos meus.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O orelhão e a TV

A cidadezinha que se chama Poço das Ovelhas deve ser um reduto do diabo. E verificar isso é simples quando se olha para este chão calcinado, para estas plantas sem ramas, aquela pastagem seca, a horta sem verde. Um quadro estéril pintado por uma mão cansada que só chegou para rabiscar esqueletos e carcaças de bichos mortos pela sede e pela fome. Os animais vivos são todos magros, cambaleantes, e escarafuncham a chã a ver se encontram na terra algo que o céu não mandou. Magros e cambaleantes são os homens e mulheres e crianças que aqui vivem, também têm fome, também têm sede e da mesma maneira olham para a terra a ver, neste caso, se há um reflexo do que o céu deveria lhes dar. Muito embora lhes pese a cabeça, lhes doa o estômago e a alma, ainda mantém, sabeládeus a que custo, a propalada altivez humana, como se o fato de saberem-se vivos e humildes, os fizessem soerguer mais os corpos do que um cabrito famélico poderia fazer. Os sorrisos muito raramente assomam na face destas pessoas, a risada aberta, nunca. Ademais, o cenário não leva que o comum das caatingas, das terras secas, da paisagem árida e caramelada, tantas vezes cantada em versos, em prosa, novamente em versos e finalmente em prosa.
Mas a estes confins de nordeste seco, como aliás a todo o resto do país imenso, a televisão chegou porque houve eletricidade. Olhando-se as casas de pau-a-pique e cercas de madeira mal cortada, também se podem ver os fios da energia elétrica saindo dos postinhos — de mesma mal talhada árvore — e indo ter para dentro dos casebres. Acesa fica uma luz, um rádio toca, muito raramente uma geladeira gela, sendo o comum alumiar-se a escuridão com as imagens clarividentes dos aparelhos de televisão. Do mesmo modo vêem-se os fios brancos, encapadinhos, fugirem do interior das casinhas e caminharem para os tetos a se ligarem nuns pedaços de alumínio, numas espinhas de peixe de metal. O que há também nesta cidade é o advento interessante da união de tecnologias. A capital fica a uma porção de quilômetros afastada, e como toda capital, guarda os sonhos úmidos dos sertanejos. De cada família que em Poço das Ovelhas vive, não há sequer uma que não tenha ao menos um ente querido morando para outras bandas, caçando os sonhos e tentando fazer com que a vida lhe acene com mais carinho. Ora, que suprema ventura foi quando colocaram na frente do único Armazém da cidadela um orelhão para as exortações do dia-a-dia e o desafogo das saudades de toda a gente. Pois que agora além de assistir às novelas, de quando em quando ir ter notícias dos parentes que estão para longe, saber como lhes corre a vida, se está precisando de uma reza, de um conselho, dinheiro é difícil, se calhar, mandar um beijo, as vezes poucas palavras, estar em silêncio apenas, e ao fundo, o som inconfundível de uma lágrima de amor ou de condescendência. Mas, sempre pouco tempo de prosa, já as tarifas não estão para casos muito compridos, veja-se que lá para lá das Minas Gerais qualquer bocadinho de minuto é uma fortuna. Assim, a vida não melhorou, mas ficou mais tragável, e não há quem negue que saber do mundão pela TV e saber do mundinho pelo telefone fez desabrochar sorrisos, mesmo que fugazes, nas faces povo.
Foi quando aconteceu o sucedido. Sem que ninguém desse pelo motivo, os moradores de Poço das Ovelhas começaram a captar as conversas do orelhão público pelo aparelho de televisão, fato este inusitado, mas que não chega a ser fantástico, mormente quando se sabe que no final das contas estas todas ondas eletromagnéticas são da mesma origem e família. Quem descobriu o estranho sucesso foi uma mocinha noveleira que, nos intervalos da programação, ficava passeando pelos canais. Imediatamente após o achado, contou à mãe que contou à vizinha que sintonizou o canal e passou o número à sogra que assim o fez à nora, e sendo parco o terreno, todo o povo já sabia onde ir ouvir as notícias particulares deles próprios. Foi a diversão geral, bastava que se ouvisse o trim, trim, trim da campainha do telefone ou se avistasse pelas janelinhas alguém caminhando em direção ao orelhão azul e os moradores corriam para frente das caixinhas de TV. Era simples, apertava-se o botão para ir subindo os canais e pronto, lá pela altura do número 27 surgia uma imagem difusa, chuviscada que, atentamente olhada, era reflexo desconexo da transmissora da capital, e emitia as interessantes conversas de quem se utilizava do telefone público. Contrariamente à imagem, o som era nítido, absolutamente audível o que concorreu sobremaneira para que se tornasse muito divertido o novo entretenimento da cidade. Como deixar de falar no orelhão não se podia, e proibir que se escutassem as conversas aos aparelhos menos ainda, ficou-se assim a saber de quem houvera casado, separado, se empregado, se desempregado, da grávida, do pai da criança, da infecção de bexiga da tia e até dos cornos de um alguém, caso este que bem poderia ter virado sangue, não fossem as palavras sempre meras palavras e passíveis de reconsiderações e de provas materiais contrárias a elas, quando não um facão ao pé da jugular declinando todo e qualquer comentário maledicente.
Num lugar assim como Poço das Ovelhas e com um povo assim, como o de Poço das Ovelhas, ainda agora com essa atribuição tecnológica de espionagem, pode-se imaginar que o diabo trabalha à vontade. Já vimos que calcina o chão, emagrece os bezerros, faz as crianças chorarem da fome e das picadas dos insetos. Deixa os homens sem trabalho porque bloqueia a chuva, e usa a televisão para contar e mostrar estórias e imagens de uma vida e de um país que será para o futuro, o futuro dele, entenda-se. Sendo o homem homem e a curiosidade atributo inerente, que mal não faria um povo a si mesmo tendo em conta todos os segredos uns dos outros, ainda mais quando o demo fica por detrás cutucando de vara curta. E era isso que andava a suceder na cidadela, como visto, houve até um quase caso de morte por fuxico sobre a vida íntima dum casal. De qualquer maneira, e embora as intrigas e comentários maldosos causassem algum desconforto, não era motivo de grandes preocupações. O diabo lá brincava com uns e com outros, provocava daqui, atiçava de lá, mas nada de muito, nada de grave, nada que valesse tirar o sorriso tão caro dos sertanejos. Ocorre que Deus, que não anda para brincadeiras e nestas alturas estava sem nada para fazer, por acaso espiou estas paragens e se apercebeu do que acontecia em Poço das Ovelhas. Em Sua sabedoria imensa, não poderia deixar de tomar uma atitude corretiva àquelas tentações do demônio. Assim estabeleceu uma proposta de ação. Como o diabo, embora ficasse endiabrando todo o povo, não havia tomado as rédeas do público telefone (não precisava ele diabo de interferir nas conversas e nas falas, bastava-lhe soprar as fagulhas riscadas pelo orelhão) assumiu o controle das emissões sonoras que saiam do aparelho de telefone e iam para o aparelho televisor, de maneira que agora podia ditar o conteúdo da programação. A Celestial medida cumpria duas funções, uma primeira e imediata que era desarticular o pobre diabo, não permitindo que ele ficasse abanando as tais fagulhas das conversas alheias a ver se arranjava um incêndio, e uma segunda e de longo prazo, que era difundir a tão malhada palavra Divina pelos confins desse mundo de meudeus. Houve no princípio um estranhamento geral na cidade, buscou-se outros canais, procurou-se posicionar as antenas para captar novamente as conversas dos outros, e somente quando se notou que o caso não era de nitidez e sim de conteúdo, o povo deixou-se ater pelos novos ruídos, a saber enfim de que se tratava. Deus, que já se considerava a si próprio um gênio, meteu nas transmissões passagens bíblicas, conversas entre pastores, os diálogos dos apóstolos, o Sermão da Montanha e tudo quanto de santo e de belo havia na palavra Dele. Mas logo o populacho pensou que eram interferências de um programa Evangélico na interferência do telefone público, e novas e insistentes mudanças foram tentadas para se voltar a escutar as antigas conversas da vida alheia, isso com palhas de aço, com espinhas maiores de peixes de metal, e até um improvisado guarda-chuvas virado ao contrário, todo de arame, com umas placas de alumínio (estranho instrumento) foi utilizado. Debalde. Ninguém desconhece que o pobre e fraco homem nada pode contra a Indelével e Onipotente vontade Divina, motivo pelo qual, desde a primeira emissão das palavras do Senhor, ninguém nunca mais veio a saber um pio sequer da privacidade dos convivas, o que, num primeiro momento, causou um arrefecimento da animosidade entre alguns moradores, mas que depois veio a despejar a cidade num profundo e insondável silêncio, retirado assim como o fora entretenimento tão largo. O diabo, quando viu enfiar-se Deus na sua empresa, deixou-se ir atarefar com seu afazeres comuns de diabo, não logrou voltar à cena, uma vez que não possuía recursos tecnológicos suficientes para fazer captarem os moradores de Poço das Ovelhas umas ondas piratas, piratas e satânicas, deixando a cidadela à mercê da programação Divina.
Os fugazes sorrisos sumiram-se do povo e Deus, que não costumava utilizar-se de pesquisas de audiência, não se apercebeu quando retiraram, algum tempo depois, o telefone público, que público havia tornado-se das traças, mantendo a Sua reta palavra no canal 27. Não sobra dúvida de que a maledicência na cidade diminuiu, os casos de brigas e desavenças são o comum das cidades comuns. Pode-se dizer também para o lado de Deus que, na verdade, o telefone nem muita falta anda fazendo, e isso prova que a intervenção Divina veio trazer paz ao vilarejo, e finalmente meter o diabo no seu devido lugar, calcinando a terra e secando as folhas e emagrecendo os animais, que aliás, de barriga vazia e sem sorriso no rosto, se esturricam como nunca antes.
(este texto foi originalmente publicado a seis de abril de dois mil e sete)

É a mulher quem constrói o homem

Hoje estou com Lídia. Mas, há pouco tempo, dois meses atrás, estava com Ana. E, no começo do ano, a paixão foi Joana. A questão não é ser volúvel, mas, como essa troca constante de parceiras pode descontruir o homem, ou então faze-lo arremedo de prédio, daquelas construções que foram sendo reformadas épocas e épocas sem respeito à arquitetura original. Sou submisso, e este é o ponto. Se a mulher que amo pede, faço na hora e ainda abano o rabo. Haverá homens que se mantêm absolutamente fiéis aos seus gostos, suas preferências estilísticas, claro. Não é o meu caso. Lídia me comprou um sapato de bico muito largo, parecem uns pés-de-pato. Horríveis. Não obstante uso-os com um sorriso largo do mesmo naipe que o pisante. Tenho um amigo que odeia cebola, mas, mesmo assim, faz questão de come-las com júbilo quando o seu benzinho prepara algo com esta espécie de aliácea. Do exemplo contrário não vou falar, que todos nós sabemos e em verdade a maioria dos homens é assim: faz o que deseja e do seu jeito. O futebol é um caso clássico. Os homens não abrem mão deste espetáculo, sobretudo aos domingos — que consideram sagrados —, e os programas esportivos posteriores também. Gosto muito de futebol, mas se a Lídia (que pra falar a verdade até gosta do esporte, quem não gostava era a Virgínia, meudeusdocéu, não podia sequer ligar a televisão em dia de jogo. E minha índole funcionava perfeitamente. Corinthianíssimo que sou, fui passear de mãos-dadas numa praça no domingo da final de 1999, tomando picolé, enquanto o meu Timão era Bi-campeão Brasileiro. Ela me disse que seria uma prova de amor, nem precisava, não sei dizer não à mulher que amo), enfim, ia dizer que se a Lídia me pedisse para não ver o jogo da final, não veria. Exceto Copa do Mundo com o Brasil, aí até eu que sou molenga, endureço. Dizem que mulher não gosta de homem submisso, vai ver que é por isso que meus relacionamentos duram pouco. Se bem que, por incrível que pareça, quem dá a declaração de fim do romance sou sempre eu. Talvez a mulher se compadeça do bonzinho que sou e, incapaz de me fazer sofrer, se vai fechando em si mesma e se tornando propositadamente insossa ao meu gosto. Aí, por que não vejo mais graça, termino e nem me dou conta de que quem terminou foi ela. É, creio que é isso. Aliás, há uma história curiosa, exemplo de como uma pessoa pode enganar-se a si própria, no caso corrente, eu mesmo. Namorava uma jovem linda chamada Inês de Castro que execrava bebidas alcoólicas. Bom, eu sempre fui chegado num uísque, numa cerveja, num bom vinho, naquela caipirinha de pinga. Acontece que não havia meios de conciliar as coisas, a Inês odiava beber, e pior, não suportava o cheiro. Para não brigar, e novamente incapaz de dizer não, parei de beber completamente, sequei. Ora, evidente que não poderia dar certo. Ao cabo de uns quantos meses considerei que me tinha tornado uma pessoa mais azeda e mais triste sem o álcool, e deixei Inês. Não podia beber na presença dela, mas ela não estando, não precisava contrariá-la. O Bar da Esquina de Sábado me recebeu de braços abertos, nota Dez. Digo que não sei dizer não às mulheres e minto. Ficou provado que a esta senhora bebida eu sei dizer basta, nem que seja por período curto de tempo. Mas a culpa foi da Inês, a vida não precisa de radicalismos.
O que estava querendo dizer no princípio e me perdi, é que o problema não é ser submisso, tão pouco volúvel. O problema é ser as duas coisas ao mesmo tempo, esta triste sina minha. Se se passa tempo longo com alguém se deixando moldar pelos seus gostos, tudo bem. Passando pouco tempo a coisa se complica, as combinações tornam-se difíceis. Temos uma namorada que gosta de roupas clássicas e além dos nos presentear nesse quesito nos faz comprar peças dessa linha, a próxima — dois meses depois, três — faz o gênero esporte e nos compra bermudas, camisetas de jogador de tênis, sandalhas chamadas de papetes com grande tendência à afetação. Para não falar musicalmente, uma gosta de MPB, a outra de pagode, uma ainda de Eletrônica, e eu me debruçando em todos os ritmos. Vira uma zona, e ainda por cima ouvimos enxovalhos. Logo que o relacionamento com Joana acabou, no começo do ano, estava em uma festa com Ana (a imediatamente anterior à Lídia, pensando bem, não sou assim tão voltívolo). Por pura coincidência meu aniversário fora duas semanas depois de ter conhecido a Ana — faço aniversário em 21 de fevereiro — e ela me presenteou com uma bela camisa. Fui, então, à tal festa trajando o estimado presente. Vesti uma calça qualquer, calcei um sapato qualquer, ignorante de que os tais sapatos houvera sido presente da Joana, e mais ignorante ainda de que a própria estaria na festa. Pois estava e no único ensejo que lhe ofereci de estar sozinho, se aproximou e disse, “Cretino, estes sapatos fui eu quem dei, por acaso as cuecas são presente da magrela?”. Joana, por certo tempo depois de termos terminado, insistia em chamar Ana de a Magrela, muito provavelmente por algum despeito inconsciente, sabendo-se sólida, bem composta. As mulheres têm disso também, apesar de ser linda e muito saborosa, Joana provavelmente se comparava à esbeltez de Ana, verdadeira la flaca. Curioso é que Joana deve ter achado bela a camisa que estava usando e ainda gabado-se imaginando que eu tinha ao menos aproveitado um pouco do seu bom gosto e comprado aquele fino, desconhecendo ser presente de Ana. Mas isso até que não me causou tanto problema, Joana e Ana têm gostos muito parecidos.
Sei que podem pensar que sou um pau mandado. Na verdade não o nego, vivo bem e sou feliz assim, oferecendo-me como instrumento para o deleite das vontades femininas. Acho, aliás, que isto até me ajuda na conquista, na aproximação, porque é impossível que eu não seja dócil e atencioso com as palavras e necessidades das mulheres, uma vez que, querendo ou não, concentro-me em lhes fazer as vontades todas. Quando conheci Lídia, minha atual, passou-se algo assim, assim como um demonstrar instantâneo de que sou atencioso ao extremo (e também frívolo, embora ela não saiba). Conheci Lídia no intervalo do primeiro Ato de Aída do Verdi. Tendo amigos em comum, ouvi-a confidenciar a um desses que estava com uma enxaqueca terrível e que precisava ir embora, conquanto não lhe apetecesse pegar um taxi. Prontamente, metendo-me na conversa ofereci-me para leva-la à sua casa, “Eu te levo, agora”, “De jeito algum, não quero que perca a apresentação”, então respondi calmamente mas resoluto, “Não tem problema, não é a primeira e não será a última experiência minha com Verdi”. Desta maneira, mesmo sabendo que não aconteceria nada — como não aconteceu — levei-a até em casa perdendo a ópera maravilhosa e 250 reais da entrada do Municipal, além dos outros 250 do convite de Ana que eu havia comprado antecipadamente, sem saber que teríamos uma briga séria na véspera do evento. Claro que valeu a pena, no dia seguinte não foi difícil descobrir o telefone e ligar perguntando se a cefaléia havia passado.
Mesmo assim é uma complicação. Vivo chamando a Lídia de Ana, assim como chamava Ana de Joana, Joana de Inês, Inês de Úrsula, Úrsula de Carlota, Carlota de Lígia, Lígia de Cecília, porque, em menos de dois anos, estas todas foram minhas namoradas firmes e fixas, na medida em que era quase fixo o tempo em que as substituía. No dia 06 de janeiro, na festa de aniversário de um amigo, um outro amigo — ah, o que não gosta de cebola — me disse que não era tão mau assim, que a única coisa que eu deveria fazer era parar de ser tão voluntarioso à vontade das minhas amantes, “Fica assim resolvido o seu problema”, seguia dizendo este amigo, “Pois, tratando-as um pouco mal, elas não vão ficar no seu pé quando o romance acaba”. Acho que ele tem razão, enfim. Tanto que prometi mudar de atitude daqui para frente, sob pena de mudar meu nome e não me chamar mais João Zuckerman. Coitada, quem vai sofrer as conseqüências disso é a Lídia, que apesar de alguns pesares, andávamos caminhando bem, já há um mês e meio. Mesmo com uma calça e uma camisa, vários cds de jazz, além, é claro, dos sapatos de pato, não será possível mantermo-nos juntos. Se vou começar a estrear uma nova filosofia de relacionamentos, preciso começar com tudo novo. Ah, Hilda, mesmo que eu chame você de Lídia algumas vezes e aceite, quem sabe, uns óculos ou um perfume, ou mesmo uma pegar uma rave, garanto que nunca mais deixo de assistir ao futebol aos domingos pra que tudo corra bem entre nós.
(este conto foi originalmente publicado em 02 de abril de 2007)

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Utilidade Pública

Citadinos (deste e de outros Estados, por ventura),

Há um ser desprezível e vil que se julga o centro do universo e crê que salvará a humanidade. Porque alguém lhe dissesse, então é diferente, e estando tudo errado, é ele o certo. É uma pessoa que imagina merecer muito mais do que tem e sempre espera a cobrar do mundo desconcertado os benefícios que não logrou êxito. Inteligência sutil, maior, mais limpo, mais belo, mais alto, exemplo explícito do que melhor pode haver, assim crendo, quase se engana ou até: investe em arrancar elogios julgando merecê-los, retira-os aos mais ingênuos. Sobeja-lhe um certo lábio desenvolto e, então, o que deveria ser espontâneo e o não é, por não poder ser, assoma, e regozija-se, e pede mais agrados, assim por uns ou outros crédulos consegue-lhes a inverdade, quando não dinheiro.

Mas é a precisão de que necessita este torpe homem: “és belo, és sábio, és incompreendido, és o melhor, te não dão o valor que mereces, quando te descobrirem..., és tão bom que és humilde...” Há o exagero em seu pensamento, que nem impingindo conseguiu arrancar. Mas, Ah! Basta-lhe! precisa de ouvir tudo isso! E ainda acha que enxerga, e crê que observa, e presume que encadeia, pensa que pensa, mais, mais e mais. Assume as farsas que criou: escreve, joga, estuda, compõe, cria, dedica, revela, ensina, demonstra, ajuda, perdoa, compreende, cobra, recobra, se indigna... e anda a fazer isso com tanta verdade que, pasmem, julga! Então, é pior, porque sai a julgar a tudo e a todos e se sente melhor ou se sente acima, no pedestal de mentira que ele mesmo erigiu. Não polpa ninguém, nem mesmo a si: quanta vileza, quanto asco me causa, pois se pode julgar a si próprio, passa à vista e sabe o que é e não toma em conta.

Assusto-me ao pensar que sabendo quem seja de verdade, e o quanto de mal está a causar a tanta gente, não se importe qualquer pouco que fosse. Meus colegas de cidade, causa-me pena e torço pelo contrário, imaginar que um dia, por azar outorgado do destino, algum de vocês cruzou com tão torpe e vil e reles pessoa em suas vidas. Estejam atentos, denunciem, saiam correndo aos gritos. Não descartem, inclusive, o uso de pedras e paus.

p.s. - eu tinha vontade, mas só pude escrever isso a pedido de Zuckerman, claro.

(na foto, Djinn de El Khaimah)
(este texto foi originalmente publicado em 30 de março de 2007)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Gamelo

(o texto que segue abaixo me agrada. Nunca despertou algum interesse nos leitores do blogue, suscitando simplesmente nenhum comentário, muito menos de outros a quem o mostrei impresso. Claro, a forma é ruim, a maneira de contar não ajuda. Mas gosto particularmente da idéia e a despeito de o vocabulário parecer - e talvez seja mesmo - pedante, houve uma intenção muito específica para usá-lo (e pesquisa, inclusive). Quem quiser, agora, ainda pode pensar no Padre Capio e no São Francisco, da maneira livre que se queira, claro esteja).
a meu amigo Renato Smirne, que me ofereceu a idéia, e sempre está do meu lado nas dificuldades.
“A gente colhe o que a gente planta”
ditado popular

O homem errava ao encontro do rio. Ia no sentido da jusante, convicto, com apenas um gamelo em mãos. Quando chegou à margem pensou que haveria, por óbvio, uma terceira como algures havia lido. Mas fosse caso para outras reflexões, pois a de agora era esvaziar este rio com o gamelo que trazia consigo. Apressou-se na faina, era lá lide de horas, dias, quiçá século. Empertigado no limiar, o homem baixava o gamelo, enchia-o da água diáfana do rio e entornava o recipiente cerca de três metros para frente numa reta normal com a margem direita. Ia adiantado no serviço quando, sol esmorecido quase de todo, o caminhante se aproxima, põe-se de cócoras, dá dois piparotes num alforje que traz consigo chamando atenção para sua presença e diz:
— Boa tarde, pretendes esvaziar o rio?
— É o que tenciono.
— Pelo visto não vais a contento...
— Havendo força e tempo não faltando...
— Sim, tens razão, mas esqueceste de algo.
— Quê?
— Onde andas a despejar a água que vens retirando?
— Ali, pouco adiante.
— Vejo.
— De que me esqueci?
— De que ali só há uma cova, e mesmo que vás cavar outras, não poderiam elas ser suficientes a toda água do rio...
— Não alcanço, e lembro-te de que havendo força e tempo não faltando...
— Sim, mas se conseguires cavar tão fundo e largo, apenas estarás a transpor o rio, e aí, de que te valeu?

O homem pousou o gamelo no chão, secou com os punhos um suor qualquer da testa e não fitou o caminhante. Havia sido pego num dilema, havia-se-lhe escorregado o sentido de seu trabalho. Soerguendo um pouco mais o corpo afim de aparentar dignidade humilde, perguntou:
— O que é que me sugeres?
— Planta e rega com o gamelo. O homem então apontou o dedo e respondeu:
— Ali ao pé da gameleira andei colhendo tudo quanto plantei e mais muito que nem havia sido eu o semeador.
— A gente aqui colhe o que planta, e a gente aqui colhe mesmo o mato ruim que não plantou.
— Aí é que tens, por conta de vir pegado ou se misturar na barriga da terra com o que era nosso, pelo mal que aramos arrancamos do chão muitos mais males que os nossos próprios.
O homem rematou com essas palavras a conversa, e como sabia que do caminhante não viria por ora senão o silêncio, pôde olha-lo de frente, já nessa altura com um sentimento de cumplicidade. Homem e caminhante haviam se entendido, mas no silêncio mútuo ficava a aresta ardida do que ainda faltava dizer.

O caminhante levantou-se e disse:
— Vá lavrar a leira, não é por semeares uma vez mal e arrancares os teus e outros males que não podes mais mexer na terra.
— Não tenho comigo sementes.
— Ali na beirada do rio deixei umas que encontras à mão.
— E então?
— Usa a cova que já cavaste de rego.
— Ficou muito funda...
— Cava um rego do outro lado e tapa com a terra que vais tirando da segunda, a fundura da primeira.

O homem abaixou-se a apanhar o gamelo, olhou na direção do caminhante que havia reclinado a cabeça num movimento de quem ia abrir o alforje mas desistisse no caminho. O homem caminhou em direção ao ponto indicado da margem e encontrou as sementes, depositou muitas delas no gamelo, depois fez concha com as palmas da mão e sorveu um tanto de água do rio. Ao erguer-se, deu com o caminhante ao seu lado e afirmou:
— São boas as sementes.
— Vai lá trata-las na terra.
— E se eu tornar a plantar mal?
— Pode ser que assim seja.
— E se, plantando bem, nascer raiz ruim pegada com as boas?
— É muito provável, até.
— Então de que me serve?
O caminhante não respondeu, esperou que o homem fosse lento chegar-se à leira e só quando este se agachou para novamente transformar a mão em concha e cavar, falou na voz alta:
— Serve-te para saberes que sempre haverá semente e terra!
— Disso já eu sabia, me faltava encontrar novamente uma e outra.
— Então toma por léria minhas palavras?
— Não, não tomo, porque sei o que carregas no teu alforje.
Antes de tirar a segunda porção de terra do segundo rego, o homem observou o caminhante ao lado da margem do rio, a imagem se misturava com o pôr-do-sol, e o caminhante agora abrira o alforje e tirando algo de dentro gritou ao homem:
—Também eu precisava lembrar-me de que há sempre o rio e sua água!
O homem nada respondeu, baixou na terra para retirar agora o terceiro lote do segundo rego e viu o caminhante descer o gamelo até a água, enche-lo até a borda e ir depositar o conteúdo numa cova que ainda não começara, enfim, a cavar.
(este texto foi publicado originalmente em 16 de março de 2007)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Capinar

Quando a necessidade nos empurra a capinar é que a coisa já não vai bem, não sendo esse o nosso ofício de comum. Ou são férias. Mas a coisa ainda não vai bem, porque além dos montes há a praia, quase sempre. O caso é que fui capinar a calçada da casa em que moro (há uma distinção tão fundamental entre "a casa em que moro" e "a minha casa" que este parêntese é tolo). Dizia que fui capinar a calçada da casa em que moro com o sol das onze ardendo na cabeça. Claro, escolhi o sol a pino para me dar o sofrimento cúmplice do que então imaginava ser pegar na picareta e na enxada. Calção velho, chinelos havaianas, sem camiseta, e o mais ridículo: o celular no bolso (junto ao controle do portão elétrico).
A calçada não é pequena para o meu gosto. A frente da casa terá qualquer coisa como 25x10m, e o calçamento não foi terminado, estando no cimento, com os recortes delimitados no que seria, imagino, a futura cobertura acabada. Ou então deixou-se assim para tornar num jardim rupestre, o que até não desagradaria, a despeito de ser absolutamente óbvio, pela quantidade de ervas daninhas que me esperavam, que de rupestre ali planta alguma poderia ser chamada. O muro tem hera em cima de si, o que se não faz diferença na faina de capinar, soma-se com peso grande na hora de limpar, já que as folhas verdes e as folhas secas caem num choro de criança desautorizada no doce: devagar e sempre, soluçando. Curioso como uma simples calçada inacabada pode servir de espelho do que vai ficando por terminar nas construções humanas (escusado dizer que não só as de alvenaria, há calçada para tanto gosto e paladar da terra até ao céu das nossas filosofias).
Os buracos que a chuva vai esculpindo no piso, junto à depressão do terreno e à força das raízes das ervas daninhas, que é bom que se diga há algumas parrudas, são muito cheios. Então eu meti a picareta com a ponta mais aguda no primeiro que vi pela frente e fui cavoucando pra ver o quanto saia. Terra, mato, mato, terra, caramujo, formigas, outros insetos que não identifiquei, uma sujeira que não sei bem o que seja, farelo de folhas secas, restos de penas etc. Pode até ser que o Manoel de Barro encontre beleza nessas coisas miúdas e outros ciscos, mas, pondo a mão na massa, não é tão edificante assim, ou desedificante, como queria o poeta.
A atividade não chega a variar muito de escarafunchar a terra com a picareta, arrancar o mato com as mãos, varrer para a sarjeta os detritos despojados do buraco. O que acontece, entretanto, é que bastantes buracos não passam de nesgas, frinchas onde a gente tem que meter a mão e uma chave de fenda (não sou profissional da coisa, se há equipamento apropriado, e imagino que haja, não sei qual é) na fendinha e ir puxando a porcariada. Que merda. Merda mesmo. As plantinhas menores normalmente estão assentadas na fissura com bosta de animal (suponho que cachorro e gato, mas a gente sabe que os muros e calçadas com muito verde são os preferidos para a evacuação de mendigos e bêbados). E essa bosta, em alguns casos quase petrificada, não deixa de feder e de ser desagradável ao tato. Curioso como meter a mão nos buracos das calçadas que ficaram por construir e achar nela merda não deixa de ter o seu paralelo num olhar paras as nesgas do nosso passado, e o que nele muitas vezes encontramos de sujidade.
Como não dá pra ficar lavando a mão de buraquinho em buraquinho, a sujeira que se vai acumulando nas mãos e no corpo (com a ajuda do suor que o sol do meio-dia, treze horas, quatorze horas) torna-se preta e uniforme, e depois de um tempo o nariz se acostumou ao fedorzinho. E se tem porventura coco debaixo das unhas, não se poderia identificar sem um exame químico, porquanto a gente prefira nesse caso ver barro escuro onde merda há. Planta e terra são trecos que coçam e se espalham, motivo pelo qual da cabeça aos pés há pó de detritos, além de uns pontinhos vermelhos e muito irritantes de alguma alergia que não se saberá ao certo.
Saldo da brincadeira: 1)uma calçada limpa de ervas daninhas; 2) uma sarjeta com montinhos de ervas daninhas, terra, areia, ciscos, insetos e merdinhas juntados geometricamente a cada metro, pois a preguiça se esgotou a quando de colocar no saco de lixo; 3) uma vassoura quebrada pela inépcia do condutor; 4) um cidadão que parou de ler "As transparências do mal" porque pensou que seria mais útil colhendo erva daninha, de dedos com bolhas, sujo até a cabeça de barro e caganitas, além de estar com o lombo torrado do sol e cansado como se muito houvesse trabalhado; 5) e o pior, é que como não tem paciência de ir, agora, cuidar da hera do muro, vai tomar banho e reler todos os textos da celeuma envolvendo o Renato Janine Ribeiro a ver se tem algo forjadamente criativo para escrever, num texto que postará em seu blog, afim de que o vejam inserido no debate intelectual do Brasil que não capina merda nenhuma.
p.s. - o "saldo da brincadeira" enumerou-se para que eu pudesse avacalhar-me em terceira pessoa sem exacerbado dramatismo.
(texto publicado originalmente em 06 de março de 2007, no endereço: http://julianomachado.blog.terra.com.br/?m=200703&page=4 )

Urinar no jardim

Meu amigo Júlio gosta mesmo é de mijar no jardim de sua casa. Ele explica: "Não é que não uso os banheiros para fazer xixi, uso sim. Mas é que mijar é bom mesmo no jardim, porra".
Eu pergunto sobre a higiene, ele não parece ligar: "Primeiro que se eu não mijo, o gato mija, o passarinho caga. E outra coisa, eu sempre deixo uma mangueira à mão e dou uma molhadinha nas plantas por cima da minha molhadinha". Ele ri.
Eu insisto com ele, Júlio, e as mãos? "Veja você, na verdade não é sempre que eu volto para lavar, não. Quem inventou as bactérias foram os microscópios. E outra, mijar no jardim é a coisa selvagem, o vento no pinto, depois balangar os respingos e passar as mãos nas calças".
Julio me convidou para almoçar esses dias, serviu belo prato à base de um tempero de ervas. Perguntei alarmado, você não planta suas próprias ervas, né? "Descansa amigo, só uns miosotis, e mesmo assim jamais colhi nenhum".
(texto originalmente publicado em 01 de março de 2007 no endereço: http://julianomachdo.blog.terra.com/?m=200703&page=4 )

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

A casa dos sonâmbulos

A porta apenas encostada destaca-se na penumbra numa somente tonalidade de ocre. Um fio escorreito que é menos escuridão e sequer luz distingue-se porque cresce, lento, indeciso, e vai se tornando num triângulo isósceles que aumenta o ângulo de seu vértice. Da porta o vulto é da mãe. Ninguém lhe observa, ninguém a adivinha e a percepção do filho é somente, quem sabe, uma sensação táctil de um ar que tremula, diferença de pressão impossível de ser aferida. Ele mesmo sentado a um canto, e um pouco mais iluminado por uma réstia de sol que agora invade, fagueira e moleca as espessas cortinas (se outro fosse o tempo caberia melhor a colgadura), não se deixa notar. Se a luminosidade ora lhe é mais bondosa, a ausência absoluta de movimento equipara as duas figuras.
Cruzam-se. Movimentando-se em relação ao filho, a mãe passa. A luz vê movimento no repouso da mãe, o filho ultrapassa-lhe. Não há repouso absoluto, e por isso mesmo, qualquer vislumbre de confluência que apaziguasse o olhar. Não se percebe quem abriu as janelas e agora a luz escorreria abundante se deus não tivesse programado dias chuvosos. Entretanto os objetos saíram da penumbra. Um prato é um prato, uma xícara é bem uma xícara e cumprem suas funções de xícara e prato. Mas não estão. Nem a mãe, nem o filho, nem a louça estão. Adejam o soalho, adejam o mármore da pia, adejam os móveis todos da casa. Físicos, sabem que o tempo não é absoluto, imateriais, não se percebe cientificamente como deixaram de deslocar ar à sua passagem. O relógio do filho marca as horas que nem algarismos correspondentes possui o relógio da mãe. Ainda assim, escurece novamente antes da conveniência invernal.

As sombras retornam. Já não se sabe se xícara ou prato, se mãe ou filho. A casa é silêncio de trastes imperscrutáveis. Os relógios dissonantes concordam que é tempo de apenas encostar novamente as portas (sem agentes do movimento o ar farfalha e, suavemente, dança). A casa finalmente respira. E cuida por si mesma de tapar as frestas, vedar as nesgas, garantir o sono de mãe e filho, que lhe retribuirão não acordando de fato.

A porta apenas encostada destaca-se na penumbra numa somente tonalidade de ocre. Um fio escorreito que é menos escuridão e sequer luz distingue-se porque cresce, lento, indeciso, e vai se tornando num triângulo isósceles que aumenta o ângulo de seu vértice. Da porta o vulto é de alguém. Ninguém lhe observa. Ninguém pôde supor que o relógio acertou o compasso porque se tornou único, mas não sabe qual. Uma tesoura cortará o Anel de Moebius na largura, depois de tantas vezes tê-lo cortado no comprimento, esgarçado a um tal ponto sua única face só dupla que agora para recriá-lo em nova existência, apenas leve pressão será necessária, e a lâmina tão desgastada, não precisará de meio fio para o modificar.

A casa finalmente respira. Destapou as nesgas, abriu os interstícios todos, e parece que a luz agora entrará para colocar cada coisa em seu lugar, deixando as xícaras serem xícaras, os pratos serem pratos, a louça ser louça em sua variedade.