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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Enquete da semana

Há cerca de seis anos atrás eu inventei de enviar para a minha lista de emeios uma “enquete da semana”. A diabinha era simples: sete perguntas correspondentes aos sete dias da semana (ainda que não houvesse necessária relação da pergunta com o dia, era só uma espécie de delimitação). Toda segunda-feira saia a enquête para minha listinha e suas sete perguntas transitavam entre diversos assuntos (claro que eram perguntas arbitrárias, eu as escolhia de acordo com o que eu queria provocar. Por mais que tentasse ser plural — lá o que isso signifique — não podia abraçar o mundo e nem deixar de partir de mim, pois afinal não era senão eu quem perguntava) suscitando, por sua vez, respostas variadas e deliciosas.

A enquête tinha até uma epígrafe, que a minha amiga Claudia me mostrou quando respondeu à primeira rodada de perguntas. É do Ferreira Gullar:
"Quando a gente sente o nosso corpo, é porque está doente. Normal, parece que a gente não tem coração, estômago, intestino, nada. Viver também é assim: quando a gente começa a fazer muita pergunta é sinal de que está doente... Quem pergunta demais, vira poeta, filósofo, pirado ou místico. Por que estou aqui? O que é o mundo? Para onde vou? ..."

A primeira temporada da enquête durou cerca de um ano: por incrível que pareça a audiência foi muito boa. Muitos respondiam abertamente, outros o faziam só para o perguntador, mas o caso é que eu sempre fiquei satisfeito com o retorno dos amigos (amigos, conhecidos, conhecidos de conhecidos). Não havia regras, exceto uma: eu mesmo nunca respondia as perguntas. O que não causou problemas, primeiro porque a minha intenção não era que os outros descobrissem o que eu pensava das minha próprias questões (em muitos casos eu não pensava nada, queria era aprender a respeito), segundo porque a provocação a que me propus causou o efeito que desejei: as pessoas queriam mesmo era mostrar o que elas pensavam a respeito (a respeito de qualquer coisa, aliás). Depois disso, ali por meados de 2006, tornei a fazer o bendito questionário, mas dessa vez não tive muita adesão, e durou pouco a nova temporada.


Quando mudei agora de casa (endereço de blogue), apareceu a possibilidade de publicar uma enquête, ali embaixo da página, e não perdi tempo. Ainda não sei qual o alcance e nem a forma que pretendo dar à brincadeira aqui na Bazófia, mas uma coisa é certa: eu gosto do ar provocativo das enquetes. Como não sei ao certo o que farei com o espaço, ao menos uma coisa eu vou mudar da original “enquête da semana”. Vou declarar meu voto.


Nessa primeira, eu votei na Camila Pitanga por um motivo simples: já nunca fui fã de Deus (vez que sequer acredito em sua existência), daí que para eleger um e degustá-lo, ora, entre as opções, aquela morena de pele nédia e precisa nas curvas me parece bastante mais palatável.


p.s. – segue abaixo a primeira lista de perguntas, de março de 2001. E depois, a primeira lista da segunda temporada, algo como setembro de 2006.
Enquete de março de 2001
1.) O que você acha do novo salário mínimo?
2.) Qual a nota atual do presidente Fernando Henrique Cardoso? (de 0 a 10)
3.) Você esteve na Festa do Jair?
4.) Se chegarmos à Alca poderemos ir à Disney com passaportes do Hopi-Hare?
5.)Qual deveria ser a atitude do Presidente do Senado, Jader Barbalho, em vista das novas acusações de envolvimentos com os desvios de dinheiro público na SUDAN?
6.) O Rubinho Barrichelo teve culpa no acidente?
7.) Comente a frase: “É geneticamente impossível engravidar em um baile funk.”
Enquete de novembro de 2006:
1) O que você acha da condenação de Saddam Hussein à forca?
2) Sabe do que se trata a teoria das supercordas?
3) Qual a sua religião?
4) Qual a última vez em que você riu sozinho?
5) O que pensa a respeito da reeleição do presidente Lula?
6) Que livro você está lendo no momento?
7) Graças a Deus?

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Nem ler nem escrever

Nunca fui muito profícuo na leitura, mas sempre me considerei razoável na releitura. Me lembro que quando menino, ficava um bocado angustiado quando sentia vontade de reler os meus livros prediletos, pois imaginava que estava perdendo tempo revendo coisas que afinal eu já tinha conhecido. Talvez por ter lido muito jovem obras como a de Dostoievski (como diz o Rubem Fonseca em seu Diário de um fescenino, “vou dizer que foi com 13 anos que li Dostoievski, mas no duro foi com 12”) e Shakespeare por exemplo, é que sempre ao me ver mais homenzinho tornava a reler algum livro. A angústia foi diminuindo quando percebi que as leituras poderiam ser bastante diferentes em cada época e desenvolvimento intelectual e cultural do leitor, e que no final de contas eu descobria sentimentos e interpretações muito originais de cada novo contato. É verdade que nunca me dei por vencido, sobretudo quando comecei a vislumbrar o infinito das leituras que jamais poderei fazer, sendo que o comichão ainda salpica travesso quando retomo pela vigésima terceira vez o Hamlet.

Nos últimos dois anos tenho me dedicado a ler mais e reler menos. A maratona tem sido desgastante e por vezes inconseqüente: quando começa a chegar assim o fim do ano, novembro e dezembro, meses capitais, surge uma angústia de outro gênero ao olhar-se para as leituras feitas nesse ínterim. O que é que afinal apreendi nesse amontoado de palavras? Enfiar leitura atrás de leitura, terminando um livro e começando outro imediatamente numa conta que chega na data exata de hoje a vinte e sete livros tem algum valor sério? Chega-se a alcançar alguma coisa de uma miríade de idéias, imagens, estéticas, argumentos etc se em verdade não se pára para digerir o que foi ingerido? A esse respeito, é impossível não lembrar da irônica lição de Schopenhauer, ao comentar um ou outro leitor inveterado e de gogó aflito por contar (vinte e sete livros, tá bom...) o quanto leu: “Ah, essa pessoa deve ter pensando muito pouco para poder ter lido tanto!”. A linha de argumento do filósofo alemão é que o único pensamento válido é aquele próprio, ou seja, criado a partir do nosso próprio gênio. Considera que o exagero de leitura só pode ser um desvio ao caminho do pensamento original e próprio, que faz o ser humano evoluir enquanto pensador. A maneira, segundo Schopenhauer, mais fácil de se tornar um estúpido é “tomar um livro nas mãos a cada minuto livre”. O caso é que algo sempre me assalta: se termino um livro, preciso necessariamente escrever sobre ele? Pensar sobre ele apenas é válido para apreendê-lo? Qual seria o lapso prático-temporal para se enfiar em outra leitura?

Então chega-se a outro ponto: escrever sobre. O fato de possuir este blogue me pressiona a escrever sobre o que ando lendo, afinal, a presunção desmedida do subtítulo da página proclama: literatura. Poderia dizer que dos livros que andei lendo muitos não são de literatura (ainda que isso não redima os “afins”) e por isso não me meti a comentá-los. Mas, e se, de fato não tenho nada a dizer sobre Minha querida Sputnik do Murakami? Ué, não tenho, como disse num texto anterior, melhor me calar. Isso é extensível também ao assuntos que pululam na mídia. A quando da celeuma sobre artigo do Renato Janine Ribeiro, e por influência de uma excitação escusável de ter acabado de criar o blogue, meti-me a dizer qualquer tolice para lembrar aos poucos leitores que sim, eu estava a par dos acontecimentos. Tolices e lugares-comuns que nada acrescentaram ao debate. Mesmo assim ainda me sinto constrangido por não ter dito uma palavra aqui na Bazófia acerca da pendenga Huck/Ferréz, ou não escrever minhas impressões sobre Tropa de Elite.

Na verdade fiz um Caldeirão do Huck de idéias mal ajambradas. Perguntei mal e não indiquei um caminho de reflexão: as minhas dúvidas, para deixá-las explícitas e talvez evidenciar se têm relação entre si, são de que adianta ler um bocado de coisas intempestivamente e sem método se não se sabe ao certo o que se depreendeu delas? De que adianta escrever (e mais adiante ter um espaço para se escrever) sobre um assunto se não se acresce absolutamente nada de novo ou original ao assunto?

Uma coisa me parece precisa: as leituras, por mais que tenham sido pensadas, não conseguiram colaborar para que afinal, este mesmo texto que fala delas e de si próprio, conseguisse ser um pouco menos estapafúrdio que os demais que suscitaram as dúvidas quanto a continuar escrevendo. Ler eu vou continuar, nem que seja por passa-tempo.

p.s. – mais uma dúvida? Lembrando-me de um texto anterior que falava sobre o que se espera de um blogue, qual a diferença entre os criticados blogues de “diários pessoais” e este aqui, cuja única função foi dizer pessoalmente das coisas que leio e das coisas que intuo? Existe realmente distinção em contar “hoje fui à feira livre comer pastéis” e “hoje terminei de ler tal livro e não sei o que dizer sobre ele”?