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terça-feira, 17 de junho de 2008

O velho mistério da essência

Há um conto do João Guimarães Rosa — ou talvez um ensaio, não o tenho muito certo — chamado “Uns Índios (Sua Fala)” que conta uma histórinha sobre o contato do escritor com os Terenos, justamente uma tribo ali das bandas do Mato Grosso e arredores. Sendo sincero, desconheço o que há de ficção e realidade no relato do mestre, embora o que se conheça de Guimarães Rosa leve a chutar que as duas coisas podem ser verdade, sendo o mais provável uma mistura muito coerente de realidade e ficção (o termo coerente sou eu quem uso arbitrariamente, porque o faço num sentido literário, querendo exprimir coesão e coerência na prosa, e no caso dele, uma prosa-poética tão particular). O caso é que o conto trata do contato do narrador com alguns moradores dessa tribo, mas principalmente do contato do narrador com a língua falada desse povo e sua estupefação ante a novidade. Rosa diz que a língua dos Terenos é rápida, ríspida, e segue dizendo: “uma língua não propriamente gutural, não guarani, não nasal, não cantada; mas firme, contida, oclusiva e sem molezas”. Conclui, por fim, que tão logo a ouviu respeitou-a, assim como respeitou seus falantes, como se eles representassem alguma cultura velhíssima. Rosa então cita no conto várias palavras deste idioma que ele foi anotando em seu “caderninho” com a ajuda dos nativos, e espanta-se com algo que observa no nome das cores: vermelho – a-ra-ra-i’ti; verde –ho-no-no-i’ti; amarelo –he-ya-i’ti; Observa, como nós o podemos fazer, que o elemento i’ti devia significar “cor”. Resolvido a se embrenhar na língua estranha, Rosa vai entrevistar velhos moradores, os mais antigos Terenos vivos em Aquidauana: lá descobre que o elemento i’ti , afinal, não significava cor, mas sim sangue, e que portanto vermelho seria sangue de arara; verde, sangue das plantas; amarelo, sangue do sol e assim por diante. Guimarães Rosa se angustia, porém, porque não conseguiu descobrir o sentido de algumas palavras e de outras cores, pois os moradores antigos lhe diziam apenas que aquilo não tinha mais sentido nenhum, que não significavam nada, que diziam assim porque assim o diziam. Então João destila: “Toda língua são rastros de velho mistério”.

Fiz uma enorme introdução para contar a história bonita que o Rosa contou, mas também para chegar nestes pontos que me interessaram sobremaneira: a essência das coisas e a ligação que tudo tem com um passado remoto, com um velho mistério. A figura dos Terenos me parece excelente, o sol tem um sangue amarelo, uma essência amarela, as plantas tem uma essência verde, logo um sangue verde. Claro que isso sendo figuras de uma linguagem lá deles, não saberemos qual seria a cor do homem, se bem que — ponto que eu queria chegar —, como haveremos de saber qual a essência do homem? Talvez o não saibamos pelo “velho mistério”, pelo “passado remoto”, porque a nossa essência se perdeu num passado em que se perderam as línguas também. E não que primordialmente não existissem sentidos para todas as palavras, como para todas as essências, mas por que isso se vai tornando num mistério indecifrável quando presentes se sobrepõem a presentes numa fila inexorável.

Seria o caso, lugar comum, de cada vez mais olhar para dentro de si a buscar essa essência perdida? Ou seria o caso de, dinâmicos como as línguas, buscarmos novos entendimentos ou novas estruturas para denominar coisas que simplesmente não sabemos o significado? Creio, entretanto, que aquela angústia ancestral que domina o primeiro e dominará o último homem — assim já sentenciado que qualquer que seja a busca, não logrará êxito —, essa angústia está no passado remotíssimo da existência, e se imiscui tão sorrateiramente em tantos presentes que como os significado das velhas palavras, não se deixará conhecer, embora a sintamos aqui e ali, como usamos palavras que nem sonhamos o significado no dia-a-dia de todos os dias.

p.s. – lamentavelmente não sei dar indicações de onde encontrar o texto do Guimarães Rosa, eu tinha uma cópia xerocada que arrumei alhures, provavelmente do primeiro ano de letras. Prometo que procuro este xerox, e se achar, fica à disposição de quem por ventura se interessar.